No estacionamento a noite era tão limpa e tão silenciosa que me poderia causar medo, mas fez o contrário, tendo me acalmado de tal maneira que quase me esqueci de todos meus infortúnios e fardos enquanto me afastava da bicicleta. amarrada ao poste. Logo que passei da porta senti o vai-e-vém dos garçons aflitos, passei umas tantas mesas e deixei a mochila atrás dos amplificadores, como de praxe. O meu banco estava empoeirado, virado de cabeça para baixo em cima da caixa de som, deixei o violão no apoio e fui procurar o gerente, que ainda não me havia visto. Encontrei um cupom fiscal jogado no balcão e, enquanto esperava, nele anotei as músicas usuais, enfiando em meio ao repertório de sempre umas três ou quatro músicas do meu gosto. Mas o meu procurado não tardou a chegar, engravatado e apressado. Pegou-me a mão e me disse querer o de sempre. Mal terminou de dizê-lo, já saía a gritar um garçom magrelo que equilibrava pratos desorganizados em cima da bandeja. Senti naquela indiferença um respingo de confiança e digiri-me ao banquinho.
Ruído. As vozes todas, tão enfáticas em sua singularidade, a mim não passam de ruído. Um murmurinho irregular, que me exponenciava a irritação inconscientemente e que me abafava a voz, mesmo que potencializada pelos alto-falantes. As mesas estão todas ocupadas, o local em si absolutamente abarrotado. Uma família de sete ou oito pessoas se amontoou ao redor de uma mesa para dois, um garçom alto e parrudo conduzia um pequenino pedinte invasor à porta do estabelecimento quase o arrastando pela mão, o cheiro dos pratos recentemente feitos subia ainda quente. Não conseguia distinguir uma palavra sequer do que a multidão proferia, apenas se estilhaçavam no meu tímpano resquícios pontiagudos de uns gritos exaltados.
Não como há muitos anos, as estrelas já não queimavam acima do horizonte, não havia motivo para que se fixasse o meu olhar tão distante, mas foi assim que o mantive quase o tempo inteiro. Prostrei-me embaixo do feixe de luz e pus-me a dedilhar o violão, sentindo que as costas enviesadas e curvadas e a voz já atrasada transpareciam mesmo de início a minha má vontade. Enfim entoei os dois primeiros versos, rouco e acanhado, e não pude deixar de fazer notar a timidez em cada uma das trinta e sete canções que eu mesmo me destinei a apresentar. Vez ou outra flagrava umas mulheres caladas movendo os lábios a acompanhar as palavras dos versos conhecidos, ou ainda um ou outro que virava o rosto para enxergar a face pálida do pouco notável cantor.
A música que cantava não me atingia, sem demora embriaguei-me de uma solidão ébria, tropecei as unhas nas cordas e a língua nas elisões, aliterações. Às vezes quase me esquecia do que estava a cantar, muito embora os versos seguintes pulsassem em mim não sei vindos de onde e continuassem a ser movidos pela minha voz quase que automaticamente, disfarçando os erros dos ouvintes a mim desatentos, absortos que estavam em suas conversações.
Era demasiada a alegria que as gargalhadas disparavam ao ar agitado, flutuava ela por aquela áurea repleta de um aroma de mostarda e vinha me arrebatar, tirar-me de mim, derrubar-me e comprimir-me em uma insignificância silenciosa, deslocado que estava ali. Mas logo flutuei eu também, etéreo e estouvado, sem destino a pairar pelos sorrisos de uns rostos e pela apreensão de outros, mas foi no teu que parei, distante e invisível que estava, escondido por trás das palavras graves que de repente proferi lineares e fora de compasso, em meio ao meu estribilho desconhecido e ao estrídulo dos garfos nos pratos.
Já não me lembro se no mesmo momento me calei, nem se me estranharam, ou sequer se me vaiaram. Passo vagarosamente pela beira da pista e os automóveis me ultrapassam velozes, trazem e levam num segundo as apreensões e as expectativas de quem volta ou sai de casa. E eu já não sei se agora estou a sair ou a entrar, ou se ainda permaneço tão deslocado na solidão quanto naquele aglomerado. Toquei a campainha diversas vezes, incansável, e só depois de muito tempo recordei que a chave era única, só minha, apanhei-a instintivamente no bolso direito da camisa. O silêncio de fora me envolveu sem cumprimentos demasiados, mas senti de imediato que no apartamento vazio não havia espaço para mim. Não soube passar da porta, nem voltar ao ar. Quis gritar o silêncio e derramar num pranto silencioso o grito. Os versos que compus há muito tempo ainda em mim ecoam, e são a mim todos alheios, são no meu peito a composição de outrem gravada por cima de tudo que sou e que sei. Descobri num espasmo que ainda desconheço o silêncio absoluto, bloqueado que ele é pelos meus pensamentos e versos, constantemente deturpados pela conseqüência da incompletude de um existir sozinho. Decidi abdicar do impossível, voltei ao violão, pedi perdão ao gerente. Sentei-me e me pus a procurar um olhar igualmente perdido.