terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A sede que não posso sentir.

Acorro ao violão não somente para romper com este silêncio que me devora, a clamar gentilmente a lágrima, mas também para ver se disfarço a tua ausência, para ver se alivio estas mãos frias que não se contentam em nada envolver, mal acostumadas que estiveram a guiar os teus pulsos.
Contudo, estão não só os braços, as mãos e os dedos sem forças, como também meu corpo inteiro, que pende e se joga às paredes indiferentes que me abrigam. Tudo se apresenta como um corpo estranho a mim e largo também o instrumento, agora que as notas se recusam a interpolar-se umas nas outras e apenas gritam num compasso incerto agressões às antecedentes, postas todas pelo meu desleixo sem talento.
Sem escolha, desvio-me da existência, destes dias nublados que se sobrepõem e acumulam a invencibilidade da tua ausência sobre a minha fraqueza, destes dias que amanhecem silenciosos e permanecer alheios ao timbre da minha voz, trancafiada a deteriorar-se juntamente ao que resta de mim.
Desvio-me das novidades, dos dias que passam do lado de fora do quarto, das noites que se marcam coloridas no teu calendário, das cartas que prevejo receberes. Desvio-me de tudo quanto me dê informações, fecho os olhos a tudo, a tudo, que sempre há de te rememorar. Desvio-me, encolho-me, calo-me, e ainda assim as memórias que guardei são bastantes, suficientes para abater-me por completo com tais recordações que teimam em preencher os cantos vazios ainda não doloridos.

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