Já são tantos os pergaminhos que acumulo com os mesmos lamentos que me é inútil utilizar eus-líricos masculinos para disfarçar-me nas frases que intrinsecamente só a mim contêm. Hoje, decidi dormir mais cedo. Se me deixo ficar e me detenho próxima, é só por descuido, por desleixo leviano a que me induz um desvario tolo, quase tão tolo quanto eu. Ponho a tocar umas quantas músicas que há anos me encharcavam o rosto, e agora as sinto ralas, ocas, pueris. Se não são de estúdio, atenho-me ao fato de que se atrasam deveras as plausas de entusiasmo do público ao início. Se de estúdio, já vejo alguma parte de mim a se perguntar qual é aquele compasso. Mas então ponho as músicas que ouço corriqueiramente há dias e dias a fio e agora os olhos me ardem a ponto de me fazer esquecer o ferimento na clavícula que antes me roubava o ânimo e a consciência.
No derradeiro silêncio já não ouço zumbidos, já não há um último estribilho ecoando no crânio. Há só um ruído distraído dos raros automóveis que circulam pela ruela ao lado, das folhas que roçam umas nas outras com o vento, da chuva que se estilhaça no vidro embaçado. Esqueci de fechar a cortina, há algo em mim que me pesa mais que a agonia, que o medo, que a apreensão. Já bem sei que não há transeuntes. Deitei-me no colchão duro, que nunca tinha sentido duro, não precisei dos cobertores, não senti a calça jeans me sufocando, o cabelo embaraçando, o travesseiro caído ao lado. Já não sei se há sonho no fim do precipício em que há muito me joguei, só sei que não o esperava tão sólido quanto o que apoia agora este sono.
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