quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Estive a arrumar os armários e tive muito pouco trabalho.

Já há muito tempo passei da validade. Decerto, esgotei-me eu muito antes de esgotar o ano. Agüento-me, não obstante, estando já além do meu limite e aquém da minha vontade. Agüento-me e estouro, libero-me esporadicamente, às vezes ouve-se até o estampido, longínquo.
O porteiro me pára perto da caixa de correspondências a perguntar se está a funcionar a minha campainha. Respondo afirmativamente, e então ouço que há tempos são muitos os que a pressionam e não recebem a minha presença. Tenho escutado a música num volume demasiado alto. Tenho tido sonos irregulares e, contudo, imensamente profundos. Tenho estado absolutamente absorta em pensamentos que me dilaceram. Tenho esquecido a duração do banho. Tenho desistido ante a simples memória da ansiedade, da derrota, da falha.
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Ainda que de relance, de longe, vê-se bem que cambaleio, que tremo, que pereço. Vê-se bem que a lágrima só não vem porque fecho os olhos e concentro-me no que estive a observar outrora. Não tremo de vergonha da derrota, tampouco de incredulidade. Tremo de fraqueza, da vida que roubou-me tanto esforço, enfim infértil. O meu pranto não vem depois de assumir o erro. Vem quando estão os fatos a gritar, neste silêncio que eu mesma transbordo, a pouca probabilidade de reviravolta, tomando-se como referência aquilo que sou.
O meu silêncio não é arrogância, altivez, tampouco insegurança ou superficialidade. Aliás, volto... não cito a insegurança. Meu silêncio é seguro de si, é fato, mas apenas porque tem consciência de si mesmo e ainda assim faz-se permanecer. Esse silêncio é o reflexo da minha alma em construção, dos erros que encontro e tento remendar sem sucesso. É vítima da minha incerteza, do meu perfeccionismo barato, ingênuo, imaturo, misturado a uma vontade de atirar-me ao mundo apenas quando estiver com o discurso feito. E muito bem feito.
Preciso tanto de tempo. Sei que desperdicei tempo. Que ainda desperdiço. Preciso que me esperem, que não cobrem demasiado ainda. Preciso provar-me diante de mim, permitir-me falhar e descobrir o motivo da falha antes de provar-me ao mundo. É duro, contanto, que eu precise provar a mim que sei diante do mundo, e não somente diante de mim. Preciso atenuar essa dúvida para afirmar-me diante de mim e então, sim, engrossar a voz.

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Não, não direi que nada foi. Tampouco direi que de nada serviu. Serviu-me para aguçar-me a percepção e servir-me de experiência outra vez. Outra vez. Ando cansando da teoria, da repetição. Preciso de responsabilidades. Preciso sair de mim e provar que sei. Não ao mundo, mas a mim. Preciso afirmar-me diante de mim para atenuar a dúvida. Se digo que me esgotei, não me esgotei de fadiga, cansaço. Esgotei-me de mim. Foram tempos de trégua do mundo, não foi preciso demasiado esforço em lidar com situação alguma e esses tantos acasos que me aliviaram fizeram também com que o convívio comigo mesma já esteja no limite absoluto. Os mesmos vícios, manias, defeitos, preconceitos. Aperfeiçoei o vocabulário, contudo o tema permanece inalterado.

Agradeço aos que abafaram sem saber as dores.
Ainda, o champagne está lacrado. Talvez para o próximo Reveillon.
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2008:



(queria muito saber de onde surgiu tanto Placebo).

sábado, 27 de dezembro de 2008

Sobre a plenitude.

Não. Refaçam o teatro, devolvam-me a miopia, recitem as metáforas, recriem as anfibologias e escondam novamente o visceral. Já não quero saber da necessidade que têm de mim. Tragam de volta a dúvida.
Desestimulam-me, roubam-me o ânimo e a vontade porque já não tenho nada a conquistar. Quero esvaziar a estante e embaralhar todos os títulos para amanhã pô-los em ordem outra vez. Ou posso, ainda comprar outra prateleira para me apressar em preenchê-la, depressa. Depressa, depressa, a calma detém-me em mim e me consome. Os músculos atrofiam, as pálpebras cedem ao sono cada vez mais freqüentemente. Cansei das músicas, dos sons, qualquer voz me parece patética e os discos todos se arranharam. Perdi a fome, o doce está mofado. Abri a gaveta, jazia dobrada a sua fotografia. O coração não disparou, a lágrima não veio. Sequer me recordei.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

I build my happiness with scrambled crumbs,

Yet, sadness is the (unique but defeating) blow.

My ghosts appear in the bright.

They get me out of my sleep.
And then they lead me into me.
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Wind outside. Cold inside.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Won't toys make joy any longer?

Each fall is self-explanatory.
Illusions might always disguise the same hole,
Further thoughts will always lead me into my same reflection.

Every dream is a shield,
They come to protect (distract) me
From driving into the same canyon
Your laugh, my snore.

(And I feel so dependent)

Silence rounds this house,
Relieves me from my failures
And this voice my mouth gets to tremble
Scattering into the air,
Sounds absolutely blank.
Blank. Bleak. Blurred.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Se a desculpa/ verdade precisa for...

Ausento-me. Só para ver quem me visita.

(Ambas à consciência. À minha. A desculpa, também aos outros. A verdade, só a mim).

O que me faz a dúvida.

De que me vale que os olhos transbordem a cólera, 
Se é de ansiedade esta náusea que me invade,
Sempre que a certeza me escapa?

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Todos os pormenores que exponencio.

Ouço rumores na sala de estar. Rumores de entusiasmo e alegria. Imploro para que não me chamem, mas, com efeito, fá-lo-ão; para, assim, tirar-me do que denominam "meu casulo", ou, ainda, apenas porque sentem pena de que eu esteja só.

Penso ser uma lástima que acreditem esses seres, a mim tão distantes, que sejam capazes de afastar-me a solidão. É certo que também me esforço a repeli-la, mas não por meio de conveniências passageiras que me enganem em meio à má sorte. Repilo-a para criar um elo entre o que sou em mim e o que sou no mundo, para entender-me e estar mais próximo da nitidez, da compreensão, incomoda-me demasiado que o abstrato se distancie deveras do concreto.

Sem embargo, se não domino o azar, então logo cedo, pois assim posso vê-lo mais de perto, sem me precisar esconder. Posso entendê-lo, enfim. E, logo, escôo o meu orgulho por alguma veia que se abre por descuido e equilibro as existências de pouco em pouco, mesmo que tortuosamente, porquanto não possuo de fato a vida para me medir as conclusões e pô-las à prova.

Contudo, isso tudo é não mais que um exemplo das minhas conclusões. Ainda agora, as falas que me ouço pronunciar são demasiado mecânicas. Queria quebrar-me esta sina de não ser capaz de desafiar-me. Talvez fosse necessário o reinício. Do zero, estaria eu a implorar ao deus no qual não acredito que me restaure o sorriso, a idade e, acima de tudo, a vontade. Para que então eu passe a sentir, pensar, descobrir a vida verdadeiramente, e não somente a assisti-la - malgrado do lado de dentro, com as convicções que me prendem aqui (em mim).

Hoje, penso que passou até muito. Passou um pouco do sufoco. Passou, e não veio o alívio. Permaneço cansado, lasso, tudo o que vejo está pintado de fadiga e todo som que ouço é tão-somente a recordação da sua voz. O que expiro da boca não é o ar outrora inspirado, é só o silêncio.

Os minutos não retrocedem e os segundos tampouco se aceleram. Tenho às vezes a carta e o endereço à minha frente, e nada te envio. Tenho outras vezes até mesmo as palavras, as vírgulas, a despedida. Tenho tudo e nada envio. Tinha vontade de voltar atrás e agora nem isso tenho. Tenho só uma vista que me confunde nas palavras que já esqueci, mal decoradas que foram.

O medo, já não sei o que é, também não me recordo. Tampouco distingo as vozes, os ruídos, tudo o que ouço é difuso, tudo é o resto derradeiro dos ecos que me perseguem.

É bem verdade que não tenho a mínima vontade de voltar. Se estou mais a frente agora daqueles que começaram no mesmo instante, é somente porque este caminho que me está ainda inacabado ardeu-me em excesso, ardeu-me a ponto de quase eu sucumbir à dor, esta que senti tão intensa apenas porque dei a ela atenção demasiada. E não quero sentir de novo tal ardor. O sol é o mesmo para todos e eu fiz questão não somente de olhá-lo diretamente como também de concentrar-me no meu pé descalço que se desintegra no calor do asfalto.

Estou agora a ouvir os rumores de quem não ouve nem geme a dor. Não deixo descansar o lápis, ele desgasta-se quase em pó, e isso porque não quero deixar-me esquecer do que ando a pensar. Quero lembrar-me mais tarde e poder libertar riso ou pranto quando avistar esses lamentos pútridos, burgueses, vis, afilhados do mesmo egoísmo que costumo repugnar em outrem.

Estou a sufocar-me pela ausência, pelo silêncio, pela falta e, sobretudo, pela minha falta. Pelo texto que só soa poético se entoado com o meu sotaque, com a minha voz, com o meu timbre, com a minha altura. Pelos meus lamentos que repugno, e não calo. Pelas minhas crenças das quais já nem recordo a razão. Pelos meus preconceitos, pelos meus desamores, pelas minhas desculpas, pela minha impaciência, pela minha fuga.

Deprecio a minha auto-depreciação e desejava não precisar dizê-lo ao vazio. Não, em nada distingo a má fortuna, mas somente faíscas, rascunhos, deslizes do meu fracasso. A caneta agora me é quase um corpo estranho, apanho-a e sinto arder o dedo. Avisto o caderno vazio e apreendo-me por não ser capaz de preenchê-lo. Quero tapar o silêncio com o violão, mas logo as unhas que o arranham fazem sons que quase me assombram e deixo-o de lado outra vez. Quero espaço, quero movimento. Mas que não vente demasiado, por favor.

***

Escrevo diretamente no papel definitivo. Para que não haja falácias, dúvidas, eufemismos. Quero pôr à prova a sinceridade que tanto me lasca. Quero que repares na angulação da minha rasura e quero mesmo que percebas que tremo ao escrever-te o nome. Quero o meu relato nu, cru, exposto. Quero que leias em silêncio e saibas da tua inexistência. E que é muito por isso que tanto está a folha grafitada.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Esconder-me no (medo do) escuro.

Citam-me interminavelmente os infinitos grupos e, em meio à listagem, apenas um atém-se à minha mente, impregna-se no meu pensar a abafar todas as vozes que o ouvido conhece, cumprimenta e descarta de imediato. Cego-me, calo-me, penso, e só o que se fixa em mim é, de fato, o silêncio. O vazio é o que me contém, e só.

Contudo, persiste. Persiste a margear-me, a preencher-me ilusoriamente, essa apreensão, a devorar-me a alma, a embaralhar-me a vista, enquanto não distingo o sensato e não meço as curvas da estrada. Como se coexistissem a náusea e a fome no meu estômago, a disputar vorazmente pelos impulsos nervosos que me despertam a consciência e a atenção.

E, ainda, sigo a sentir como se há muito eu tivesse-me trancado em um coma e eu tudo escutasse e entendesse, mas fosse incapaz de reagir ao que me toca, ao que me deteriora, ao que me julga, ao que me é, aparentemente, tão irreal, a tudo que eu nego em silêncio sem de mim afastar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Tanto melhor.

Escrevo ao vazio, sem muitas preocupações ou receios, portanto. A voz que condensa a caligrafia escrita em som é uma voz grave, austera, seca. As consoantes estalam e as vogais servem apenas de alegoria para definir o meu timbre.

O salão está vazio, quase incomodado pela minha presença, as sílabas que liberto se entrelaçam em reverberações sem sincronia. Em raras vezes o dicurso parece-se apressar, e por isso ecoa e faz tremular levemente o ambiente frígido e quase que completamente estático.

O palco está também vazio, sem nem mesmo a minha presença. Outrora, fixei demais o olhar, e tudo sucedeu-se como se algum fogo fizesse a imagem vacilar, tremulando ainda mais em meio ao eco que já estava a desestabilizar o ar. De tal modo, avistei sobre o tablado, por algum instante infinitesimal, o saxofone e os dedos se alternando nas teclas, mas foi suficiente apenas uma piscadela ligeira para que a imagem se esvaísse e o silêncio voltasse a ser compreensível. Sobre o tablado não há cenário, não há admirados, não há roteiro, não há preparativos e, também, não há sinal de que ele venha a ser utilizado novamente. Há apenas a ausência ressaltada pelas lâmpadas que insistem em se manterem acesas ininterruptamente. O assento que eu ocupo é distante e comporta, além de mim, o desprezo, localizando-se exatamente atrás da pilastra, esta já desgastada, rachada, torta, mas ainda inerte e impassível aos olhos de quem se trancafia em pressa e ansiedade e sequer se instiga quanto à imensidão do tempo.

Vez ou outra esse frio rouba-me todo o ar, o salão torna-se vácuo. É assim que se cala em absoluto a minha voz. E sabe-se lá quando virá uma ventania qualquer que estilhace estes vidros e arraste para longe este silêncio, esta mudez.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Reconfigurar.

Tanto vaguei que, quando lhe tive o rosto a menos de um palmo de distância do meu, só o que vi foram os seus olhos envermelhados, a sua pele rubra, os seus lábios movendo-se a pronunciar quaisquer sermões, a sua boca expelindo de leve uma saliva, os seus dedos se encravando nos meus braços em chacoalhões descontrolados. Toda essa fúria a mim nada dizia, apenas gesticulava desesperada em meio ao silêncio que me acompanhava enquanto eu devaneava muito além do palpável... Assisti a tudo e sei-lhe narrar, mas já não me recordo de palavra alguma que me tenha sido dirigida para me escancarar a minha insolência. Aquele absurdo aos meus olhos poderia ser observado por outrem sem parecer tão surreal.
Não, não usarei palavras difíceis. Pouco as conhecem o timbre da minha voz, se não são elas moldadas pelos meus lábios em momento algum. Também não apagarei esta e aquela rasura, tampouco me importo que seja perceptível o tanto que esta caneta falha e contorce ainda mais a minha caligrafia torta. Cansei de fugir de mim.
A minha alma está lassa, saudosa da vida que eu não sei viver. Sobra a mim apenas esse cansaço pela demora, pela espera, pela teoria, pela impotência em ser o que é exigido por quem eu quero e deveria ser. Desisti da abstração, da ilusão, do irreal.
E se ainda resta algum fragmento meu a circular pelas minhas veias, é só porque me recuso a me entregar por completo ao desconforto que me traz a náusea. Entrego-me ao acaso, pois há muito sinto que já não sou eu quem me detém.
Há uma irregularidade, um descompasso. O meu corpo é demasiado fraco para me carregar e essa fraqueza me dói. Essa assimetria que me faz pender para apenas um lado o faz pesar, pesar, latejar, e eu me entrego à dor. E a cicatriz se fecha, trancando em mim os cacos, a unha, a memória, o tempo. E tudo desgasta-se, acumula-se, deteriora-se. Peso ainda mais e não sei como quebrar o jejum. Levo essa existência no vento, essa que não pesa demasiado tão-somente por quase completamente não haver.
A vida agarrou-me e cuspiu em mim a minha insignificância. E até isso eu desmereci.