sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Da solidão.

Prolongo a noite para adiar o meu despertar, porque de manhã o tempo venta, o pássaro canta, e a vida deveras me dói... 

Quando me atiro ao colchão sinto que peso tanto... Sinto a coluna inteira descansar-se, aliviar-se, a respirar. É quando me sinto contradizer, embaralhar, porquanto no resto do dia qualquer brisa descuidada rouba-me a lágrima, o tropeço, o abrigo, de tão leve que me apresento.

Sou eu mesma quem cria o atrito para não escorregar no vazio, para não me perder no nublado, no difuso, no confuso, no fuso. Contudo, a verdade é que não me movo, mas o vento não pára de ultrapassar-me e bagunçar-me os cabelos. E é então penso que me movo, e por isso crio o atrito. Mas vez ou outra a sola do pé cede no meu inconsciente ilusório, e simultaneamente no vazio factual, fazendo com que o cérebro ordene intransigentemente que a pele arda sem escrúpulos quando se arrasta no atrito que só os meus pés sentem. De longe, a brisa assiste ao meu ardor, ao meu corpo contercer-se e pausar num instante, como se se preparasse para declamar um verso de melancolia e então se silenciasse, entregando-se logo em seguida ao piso gélido do palco com a intensidade de quem se afoga no infinito do precipício (de si).

Repet(ir-se).

Pus fogo às cinzas com alguma esperança infértil, aguardando que a fumaça subisse aos céus e me abandonasse, enfim. Não só o frio desceu, como também o denso. Ceguem-me, já, e imponham-me os olhos abertos, para que ardam de arrependimento e impotência.

Esconder-me na conveniência serviu-me apenas para me trazer uma volta de conseqüências ainda mais hostis que as condições iniciais. Encontro-me superficial, frágil, e reconheço pouco do que sinto, reconheço apenas o que arde como antes. Tudo arde, mas desta vez com um ardor que me implora que eu desista de mim. Vou morrendo por dentro, aos poucos, mas logo nasce um sol, de novo, para me puxar do colchão e levar-me de volta ao que todos reconhecem como sendo o que eu não sei mais ver em mim. 

E o meu corpo, saturado... Saturado de vácuo. A epiderme flácida, pálida, frágil, desgastada e fadigada. E o vento a arranhar-me, a agarrar-me, a impôr-me a forma, tirando de mim pedaços e fazendo o corpo inteiro arder, como se fosse eu apenas carne viva. Que me condenem os biólogos, mas é de fato esse o termo que melhor designa o meu estado. Percebo que notam e sentem os transeuntes o meu coração pulsar pausadamente, engasgado, falho, em meio às faíscas que se enroscam na minha mente e me ensurdecem de mim.

Reconheço em mim apenas a covardia, a farsa, o irreal, o utópico. Afasto-me de mim para evitar o grito, para não incomodar o vizinho, e permaneço sempre por um triz sem me enfrentar. Não adianta que o vento ou que o pai me estapeiem, preciso que o coração bata forte no peito e me dê um empurrão para me impulsionar a escapar do agora e buscar o escuro e o só, para poder voltar a mim. O vazio das minhas palavras veio encher minha alma de silêncio, que agora escuta sem pudor as lamúrias incansáveis que os meus desvarios cantam.

domingo, 26 de outubro de 2008

Do susto.

E ter um espectro, uma silhueta, um rastro seu na minha mente é como reaspirar em mim o que eu já soprei ao vento, é reutilizar o estrago, é revender o defeito ao vendedor, é espremer fervorosamente o sumo da acidez na minha passividade, na minha tranqüilidade, no meu vazio, e fazer tremer o meu corpo, que entorna ao meu redor, no clímax da náusea, os resquícios da minha embriaguez, a me fazer afogar-me em mim.

(Ex)pulsar.

Uma vida vendida, cuspida, jogada, que engoli sem muito pensar. Num repente concebo uma interrogação que irrompe de todos os poros do meu corpo e faz de mim um borrão imperceptível em meio à multidão. Ouço a discussão e o disparatar calada e observo a vida com um riso frouxo que já não contém minha indefinição, deixa-a escapar aos mais atentos. Sinto que incomodo por não me encaixar perfeitamente, porquanto sobra sempre um braço que pede abrigo, uma perna que não alcança o chão, um tórax que se abre e se desabrocha a esforçar-se por abraçar o mundo, e que assim expulsa de mim o pescoço, o rosto, e obriga o olhar curioso a enxergar tão-somente a nuvem e não a árvore, o transeunte, a calçada, o pé.
Cercam-me e aceito a companhia por pura conveniência, mesmo tendo a impressão de que contorno em mim limites tortuosos quando me predisponho a não ultrapassar os rigores morais da convivência. Liberto dores e risos, o pânico da solidão se afasta irrelevantemente; e permaneço, sem embargo, alerta, por saber do risco, da minha ignorância, da minha parcialidade, da minha ingenuidade, de toda ilusão, de toda falácia. Sinto o exterior tomando cor longe de mim, a pulsação permanece rigorosamente periódica, as mãos não tremem nem suam, o cérebro não se comprime nem parece extrapolar o crânio. Na cabeça toca sempre a música que há pouco ouvi no rádio, já não me recordo do gosto do violino que me agradava, a minha memória não se detém a rosto algum, o pôr-do-sol hoje é sempre idêntico ao de ontem, e minhas aspirações e convicções permanecem ainda pendentes.
É domingo, e hoje as cores me doem. Doem porque se contrapõem sem pudor algum ao meu âmago monocromático e cinzento, fazendo arder o olho seco e se distorcer e contorcer ainda mais a córnea astigmata. Vêm, com o crepúsculo, com o ruído periódico do ventilador, com o contraponto da música, uma fisgada até dentro do meu peito, que dói em algum lugar indefinido dentro de mim, a perder-se no incômodo constante desse vazio indeciso. Já não há nada aqui, falta disposição, vontade, verdade. Saio do quarto a buscar o pão com as roupas ainda tortas no corpo magro, e a brisa sutil quase me leva embora para me abrigar atrás do tronco distorcido e sem folhas, sinto-me desaparecendo no caminho embaçado, e só não volto atrás porque repugno o quarto.
O que lêem em mim me transcende. Mas não me transcende ao além, mas sim ao irreal, ao ilusório, ao que represento. Expandem-me, reduzem-me e constroem-me em um alguém que não me contém, que não me detém. É por isso que não volto ao quarto. Porque às vezes a ilusão me convém. Não volto, porque lá já não tenho nome. Não guardo espelho nenhum que me remeta à minha imagem. Lá, apenas sou. Não guardo nenhuma referência à minha existência, e não preciso inferir nada do que fui, do que sou, do que serei, do que preciso ser, do que devo ser. Não há lei genética, nem empírica, nem racional, que me prenda a definição alguma. E é assim que o surreal me engole, e me deixa à deriva do que o tempo fará com essa minha insolência. Deixo estar, e proponho ao acaso esconder-me na minha contradição, nessa dialética cíclica, a querer entender-me sem precisar encontrar-me obrigatoriamente, visto que sei de antemão que mesmo sendo sutil, qualquer estranheza muda o foco do meu olhar ardente.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Atrair desatenções.

Num tropeço, penso que se nada mais me surpreende, se nada mais me apreende, se nada mais se depreende do que eu digo, faço e sou, talvez já nem valha mais o esforço de pentear o cabelo ou checar os dentes no espelho de manhã. Saio com certo desinteresse e comporto-me nas ruas em meio aos transeuntes com certa indisciplina. Não jogo o anúncio na calçada porque a culpa me pesa, e o tempo há muito já faz a coluna entortar. Não obstante, não me importo com o que flutua na mente alheia carregando o meu nome. Precisaria de algum chacoalhão de Weber a mostrar-me que toda ação tem um motivo social que inclui em si a reação do coletivo, porquanto ainda agora eu me expunha sem me preocupar, e não veio impulso algum a apontar a penumbra de quaisquer mudanças.
Não sei mais aonde irei buscar preocupações tantas que me mantenham alerta e sempre presente. Vagueio num nada, em palavras aleatórias, em rimas, em versos. Versos estes calados, rimas essas sem graças, palavras aquelas inventadas, que só a mim se desabrocham a fazer algum sentido.
O que mais queria agora é que houvesse um parágrafo para ser a antítese desses outros iniciais, que incluisse o pronome "você" um tanto de vezes, anulando a minha descrença, floreando e disfarçando a minha desesperança, e que fizesse o interlocutor se indagar. Mas mesmo agora, não há. Não há interlocutor, não há você, não há eu.
Há apenas um calado desabafo anônimo no silêncio, como uma onda que passa lenta, singela, sem transportar matéria.

sábado, 4 de outubro de 2008

Sobre o inquilino do tempo (de si).

Bip. 141. Silêncio. Bip. 142. Silêncio.
Os momentos de espera jamais passam ligeiros. O envelope, em meio ao polegar e ao indicador, já se marcava por um suor suave, as pontas das unhas friccionavam o selo num movimento quase que contínuo na tentativa de colá-lo inteiramente à superfície do papel. Bip. Bip. Bip. Confundia-se nas contas inúmeras vezes, mas mesmo com tantos descuidos, o 224 não se aproximava. Tirara dos ouvidos os fones, até o violino o agoniava. Observou rachaduras no teto, repousou o olhar sem preocupação no quadro de valores de cada entrega, e num espasmo virou bruscamente o pescoço para o lado direito.
Lá ela estava. As mãos repousadas nas coxas, como de costume, os tornozelos entrelaçados, parecia bem mais magra e pálida do que antes, o cabelo agora curto e mal penteado, como o de todas as outras, e os óculos escuros que lhe tampavam boa parte do rosto. Reconheceu-a sem que fosse necessária qualquer fração de instante; mesmo que deturpada por ele e modificada por ela, a imagem era em si a lembrança. Pouco a pouco um turbilhão de memórias apossou-se da sua consciência, e mesmo os bips de antes já não o incomodavam. Sem embargo, num estampido, as memórias abandonaram-no sem aviso. Reinou o silêncio. Suou mais do que antes e sentiu-se sozinho com ela, ali, vez ou outra ouvia um burburinho no guichê ao lado e nada mais. Não se incomodou com a memória, com as lembranças, com as frases que ecoavam insistentes na sua testa, com os traços conhecidos da face, nem teve vontade alguma de tomar-lhe pela cintura outra vez. Todos os ímpetos passageiros esvaíram-se, sem pudor.
Já nada sentia, apenas o corpo a desfalecer-se na cadeira. Deixou de sentir agonia, deixou de friccionar o selo, deixou de pensar ou sentir. Deixou de olhá-la, por fim. Passaram-se os minutos e ele já nem se importava com a sua presença. Inconscientemente, sabia que ainda ela estava ali ao lado, uma visão secundária mantinha seu vulto à vista, mas ele não lhe dava atenção.
Era o pretérito, o tempo, a mudança, esta que se deu silenciosamente e interna a ele, tudo isso, nesse coincidente olhar furtivo, fundira-se e ressurgira na sua existência pálida e desconectara tudo o que antes fazia sentido dentro dele sem que dúvidas ou indagações fossem necessariamente suscitadas. Bip. Algum vento levantara o tapete e a poeira afligira-o, embriagara-o, cegara-o.
Estava absorto em si. Estava anônimo dentro de si, sem reconhecer-se, sem ter para onde fugir. Bip. Desconfigurara-se de si, não se identificava, era intruso e sem terra, expelia-se de si e buscava-se em si simultaneamente. Estava às cegas sem saber lidar com a ausência, desejava possuir na mente algo em que se agarrar, algo que lhe pertencesse definitiva e eternamente, mas não se encontrou nem mesmo nas derrotas, nos arrependimentos, nas dores, nas culpas antecedentes. Desencontrara-se, e tateava mesmo a carne viva na esperança de que mesmo o ardor o trouxesse de volta a si . Não se encontrou, e daquele momento em diante soube que nada mais do que ele fora seria o que ele era. Apertou-se ao coração num ímpeto vindo não sei de onde, talvez na ânsia de encontrar-se ao menos no real, no palpável, e sentiu-se tremular, suar, palpitar.
Bip. 224. Receosa e delicadamente, chacoalharam-lhe o ombro e ele levantara-se, enfim; o olhar de repente negro, a testa de repente explosiva, a tropeçar nas próprias pernas finas. Jogou-se na cadeira e não forjou conforto, apenas concentrou-se para ditar à atendente seu nome e endereço.