sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Da solidão.
Repet(ir-se).
Pus fogo às cinzas com alguma esperança infértil, aguardando que a fumaça subisse aos céus e me abandonasse, enfim. Não só o frio desceu, como também o denso. Ceguem-me, já, e imponham-me os olhos abertos, para que ardam de arrependimento e impotência.
Esconder-me na conveniência serviu-me apenas para me trazer uma volta de conseqüências ainda mais hostis que as condições iniciais. Encontro-me superficial, frágil, e reconheço pouco do que sinto, reconheço apenas o que arde como antes. Tudo arde, mas desta vez com um ardor que me implora que eu desista de mim. Vou morrendo por dentro, aos poucos, mas logo nasce um sol, de novo, para me puxar do colchão e levar-me de volta ao que todos reconhecem como sendo o que eu não sei mais ver em mim.
E o meu corpo, saturado... Saturado de vácuo. A epiderme flácida, pálida, frágil, desgastada e fadigada. E o vento a arranhar-me, a agarrar-me, a impôr-me a forma, tirando de mim pedaços e fazendo o corpo inteiro arder, como se fosse eu apenas carne viva. Que me condenem os biólogos, mas é de fato esse o termo que melhor designa o meu estado. Percebo que notam e sentem os transeuntes o meu coração pulsar pausadamente, engasgado, falho, em meio às faíscas que se enroscam na minha mente e me ensurdecem de mim.
Reconheço em mim apenas a covardia, a farsa, o irreal, o utópico. Afasto-me de mim para evitar o grito, para não incomodar o vizinho, e permaneço sempre por um triz sem me enfrentar. Não adianta que o vento ou que o pai me estapeiem, preciso que o coração bata forte no peito e me dê um empurrão para me impulsionar a escapar do agora e buscar o escuro e o só, para poder voltar a mim. O vazio das minhas palavras veio encher minha alma de silêncio, que agora escuta sem pudor as lamúrias incansáveis que os meus desvarios cantam.
domingo, 26 de outubro de 2008
Do susto.
(Ex)pulsar.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Atrair desatenções.
sábado, 4 de outubro de 2008
Sobre o inquilino do tempo (de si).
Os momentos de espera jamais passam ligeiros. O envelope, em meio ao polegar e ao indicador, já se marcava por um suor suave, as pontas das unhas friccionavam o selo num movimento quase que contínuo na tentativa de colá-lo inteiramente à superfície do papel. Bip. Bip. Bip. Confundia-se nas contas inúmeras vezes, mas mesmo com tantos descuidos, o 224 não se aproximava. Tirara dos ouvidos os fones, até o violino o agoniava. Observou rachaduras no teto, repousou o olhar sem preocupação no quadro de valores de cada entrega, e num espasmo virou bruscamente o pescoço para o lado direito.
Lá ela estava. As mãos repousadas nas coxas, como de costume, os tornozelos entrelaçados, parecia bem mais magra e pálida do que antes, o cabelo agora curto e mal penteado, como o de todas as outras, e os óculos escuros que lhe tampavam boa parte do rosto. Reconheceu-a sem que fosse necessária qualquer fração de instante; mesmo que deturpada por ele e modificada por ela, a imagem era em si a lembrança. Pouco a pouco um turbilhão de memórias apossou-se da sua consciência, e mesmo os bips de antes já não o incomodavam. Sem embargo, num estampido, as memórias abandonaram-no sem aviso. Reinou o silêncio. Suou mais do que antes e sentiu-se sozinho com ela, ali, vez ou outra ouvia um burburinho no guichê ao lado e nada mais. Não se incomodou com a memória, com as lembranças, com as frases que ecoavam insistentes na sua testa, com os traços conhecidos da face, nem teve vontade alguma de tomar-lhe pela cintura outra vez. Todos os ímpetos passageiros esvaíram-se, sem pudor.
Já nada sentia, apenas o corpo a desfalecer-se na cadeira. Deixou de sentir agonia, deixou de friccionar o selo, deixou de pensar ou sentir. Deixou de olhá-la, por fim. Passaram-se os minutos e ele já nem se importava com a sua presença. Inconscientemente, sabia que ainda ela estava ali ao lado, uma visão secundária mantinha seu vulto à vista, mas ele não lhe dava atenção.
Era o pretérito, o tempo, a mudança, esta que se deu silenciosamente e interna a ele, tudo isso, nesse coincidente olhar furtivo, fundira-se e ressurgira na sua existência pálida e desconectara tudo o que antes fazia sentido dentro dele sem que dúvidas ou indagações fossem necessariamente suscitadas. Bip. Algum vento levantara o tapete e a poeira afligira-o, embriagara-o, cegara-o.
Estava absorto em si. Estava anônimo dentro de si, sem reconhecer-se, sem ter para onde fugir. Bip. Desconfigurara-se de si, não se identificava, era intruso e sem terra, expelia-se de si e buscava-se em si simultaneamente. Estava às cegas sem saber lidar com a ausência, desejava possuir na mente algo em que se agarrar, algo que lhe pertencesse definitiva e eternamente, mas não se encontrou nem mesmo nas derrotas, nos arrependimentos, nas dores, nas culpas antecedentes. Desencontrara-se, e tateava mesmo a carne viva na esperança de que mesmo o ardor o trouxesse de volta a si . Não se encontrou, e daquele momento em diante soube que nada mais do que ele fora seria o que ele era. Apertou-se ao coração num ímpeto vindo não sei de onde, talvez na ânsia de encontrar-se ao menos no real, no palpável, e sentiu-se tremular, suar, palpitar.
Bip. 224. Receosa e delicadamente, chacoalharam-lhe o ombro e ele levantara-se, enfim; o olhar de repente negro, a testa de repente explosiva, a tropeçar nas próprias pernas finas. Jogou-se na cadeira e não forjou conforto, apenas concentrou-se para ditar à atendente seu nome e endereço.