terça-feira, 26 de agosto de 2008

Não agüento o peso da voz.

Quase sempre o que de mim foge é também o que nunca pertenceu a mim. É sempre uma aparição muito mais rápida que um disparo, e eu tremulo demais em ansiedade para que possa ser capaz de agarrar aquilo que eu não entendo e trazê-lo para perto de mim a possibilitar a observação, a análise, a sensação de poder. É isso, essa fuga, essa demora, esse vazio.
No rádio, na televisão, na sala, na mente. É tanta a convicção, é tão pouca a base. Ouço um tanto de proposições falsas se rebaterem e estourarem no meu pavilhão auditivo, mas volto a casa e me silencio diante de mim, e é só esperar que o amanhecer logo me encontra e me retira do retiro. Fujo e sei. Sei o quão dialético é o meu discurso, que quase cria afinidade com os disparates e as hipocrisias me rodeiam quando me tiro de mim e me atiro ao mundo, mas nem por isso aprendi a me disciplinar, a tomar as rédeas e as dimensões do que sei, do que penso, do que sinto, do que sou. Critico e já não me preocupo nem mesmo em esconder-me de mim, ou deles - dentro de mim. Alterno-me em um universo e outro e dou brecha para que ambos percebam a minha mediocridade, e não me mantenho em um permanentemente porque me custa suportar a pressão da crítica, do suborno, da maioria, da verdade, da realidade, da controvérsia, da dicotomia que eu expando ao me afastar de todos a construir uma verdade que só se soluciona e se desvenda pra mim.

Paciência. Quase me dói pronunciar o nome daquilo que me falta. De que me vale saber me portar em silêncio se um universo se expande e explode continuamente dentro de mim? De que me vale ter a mesa cheia à minha frente se nada suscita a fome? De que vale o sol bater no meu rosto o dia todo, se não sei conter a lágrima que escorre a fazer a oleosidade brilhar outra vez? E às vezes eu só percebo a minha descrença quando já nem mesmo quero pôr-me de pé e sair por aí pra te ver outra vez.

domingo, 24 de agosto de 2008

Da ausência de mim.

Intrínseco ao âmago fica o vazio,
E cada toque teu exponencia um eco
Cada vez mais sem pudor.

Num espasmo o calafrio revira a dor
E revolta um pranto carente de lágrima.
O corpo ainda tremula em fraqueza,
O que resta para fazer toda a alma bradar?

Quase sempre o que eu sei
É o mesmo que tu sentes;
Nada.

E se não fosse a rigidez da derme na margem,
Curvar-me-ia e estenderia a mão,
Para ser tão mais fácil alcançar-me um aventureiro
Que me penetrasse, que me invadisse,
E que me enchesse então.

Prótese.

Num relapso, a insipidez da minha voz se estralhaça
Quando esbarra em uma quimera qualquer.
Deixo o devaneio me levar e evidenciar o desperdício,
O vento carrega os dias, as dores, os acasos.
Os acasos que em mim não me detêm.

Dispo-me toda em busca da alegria,
Busco em você quiçá um sim, um não, um abraço, um afago,
Que fosse até um estrago, um desgaste, um disparo,
Mas algo que me afaste desse meu descaso;
Todavia, no lugar do coração, o silício.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Do esquecimento.

Fosse talvez menor o meu desacerto,
Pudesse valer de algo qualquer revolta
E não a confusão que faço com tudo que sou,
Com tudo que quero, projeto, esmero, almejo.

Porquanto tudo meu é tão contrário a qualquer serenidade,
Abarca-me esse meu desejo pela paz de quem nada vê,
Essa que parece tão melhor que meus descansos imprudentes,
Que as minhas roucas indagações inconseqüentes,
Ou que o acaso trazer o silêncio para nada me responder.

Conquanto não saiba por que me reservou o acaso tal descaso
Se eu já nem tenho forças para culpar outrém,
Eu desisto do aplauso porque me abrigo na ausência,
Desdenho do tempo porque desentendi o espaço,
Abstenho do afago porque gosto do sereno,
E contenho-me com o silêncio se já nada me convém.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

reckless glance.

they don't feel my absence as it produces no additional silence
let me photograph the absurd in their voices,
but let me disappear before and after the click.
my lungs spread my loneliness in a slow low sigh,
headphones get the chaos quiet
as in my head i feel rounding thoughts crying
every word i can't speak clearly and loud.

there's a glimpse that swallows me
and gets me into my bottomless inquiries,
but by my reckoning i still cannot understand
why my eyes can only see what remains inside me.
i close them and they still sting to make me realize
that there's a messed up message coexisting with this bitterness inside
chasing me to my soul, waiting for me to drown in and decipher myself deep and dry.

and i am all to blame for.
for pain, for denial, for this, for me.

domingo, 10 de agosto de 2008

Quando tudo for anafórico.

Perdi o conceito do vício. Deste vício. Daquele vício. Do meu vício. Que se perdeu em mim e se misturou à minha necessidade, ao meu delírio, ao meu devaneio, à minha desilusão. O léxico permanece o mesmo e a compreensão não se altera, ainda que a lucidez se esvaia enquanto penso sobre pensar. Já não perco só a hora como perco também o que sei. confundo-me e entrelaço os vazios com a ausência de mim.
Não organizo mais os atos. Não organizo mais os fatos. E os pactos, e os tratos, todos individuais, pessoais, secretos, abstratos, e sem a minha obediência? Não há conseqüências para a minha inconseqüência porque vivo em uma linear falta de causas, motivos, razões.
Já não sei como enfrento o trauma, se até a dor dos outros também desperta o pranto. Não sei se desisto em meio a tanta falta, ou se permaneço a renunciar a fantasias.
A frase bonita não vem, o deus não vem, o tempo não vem, as respostas não vêm, o fim não vem. E a minha aflição permanece porque nada vem para negar a minha incapacidade. A inconstância do meu âmago contrasta com a constância dos meus dias e eu pressuponho que lá fora tudo esteja muito melhor, embora eu não saiba me misturar com quem não compreende tais mazelas, com quem nunca experimentou dessas tais.


(life x time).

terça-feira, 5 de agosto de 2008

E eles (vocês),

que pensam que pensam?

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Faltaram algemas.

Escrevo e, para isso, desprezo a literatura. Fujo dela; contudo, alimento-me dela (enquanto de outros autores) quando o ambiente e o âmago me afogam em uma realidade gélida. Escrevo porque sinto a necessidade de me apossar de sentimentos e proposições que são minhas. Escrevo porque me liberto, porque me encontro, porque sinto pulsar a se aproximar e se afastar um alguém que desprezo e que me orgulha simultaneamente enquanto encaro-me na poça d'água. Transito entre uma porção de contextos e me encontro neles ao me perder de mim. Renuncio à fantasia e retorno, esqueço-me desses tantos contextos, alojamentos, recintos, e encontro-me comigo novamente. Contudo, antes de voltar à lucidez, atinjo um êxtase passageiro, e a alegria instantânea transborda, tira-me de mim. Faço o que não devo, sigo quem não devo, e por isso escrevo. Porque sei que me perco. Volto a mim, então. Uma certa serenidade volta, intensifica a ânsia que não deixa de me abandonar. Busco aquele êxtase ao transcrever-me, mas na minha mente as palavras correm sem trégua, afastam-se, conquanto no papel a minha grafia se contorce e transparece a dor dos dedos lentos. Vêm também à minha mente a imagem de possíveis leitores. Penso no colega de sala, no amigo, no professor, no escritor, no morto, no pai, no amante, no amado, no amanhã, em mim. E noto que me divido em incontáveis segmentos das personalidades que imagino que tenham criado para mim, com o auxílio do meu comportamento mutável.
Confundo-me com a literatura quando me utilizo de voluptuosas e tendenciosas palavras para esclarecer os meus relatos e desabafos da alma, mas ainda assim atinjo aquele êxtase quando alcanço esse objetivo com eficiência. Meu corpo vibra de alegria e no meu caminhar o meu corpo quase saltita, as pernas se cruzam inconscientemente conduzindo os pés a pontilhar pegadas em linha reta no asfalto áspero. O asfalto assiste a mim todo dia, presencia o meu sorriso, e vez por outra sente o sol secar a lágrima que deixo escapulir para se espatifar na pedra. Tenho vergonha de tudo o que ele sabe de mim, enrubeço.
É paulatino o processo em que aprendo a não negar parte minha alguma. Em que a melancolia e o sorriso aprender a coexistir em mim mutuamente, enquanto as alterno segundo a minha necessidade. Em que aprendo a aceitar o desvario, o delírio, o sirroso, a amargura, o erro, a euforia, o amor, o pecado, o desejo e o desespero como frações de um único ser. Cubro no fim o meu corpo com o pijama, sobra apenas o regaço a mostra, escancarando a minha palidez. E sinto-me livre e leve, sem deixar de sentir-me vulnerável. Sinto-me frágil e decerto vazia. O adjetivo no feminino quase me fere, porque transpareço ainda mais a subjetividade deste devaneio. Com ele, sinto-me nua (firo-me, constranjo-me e contorço-me novamente agora) e exposta porque desconheço meu destinatário. E, ainda assim, escrevo. Porque sinto que me desprendo de mim. Ao vazio, talvez. Mas me desprendo.

(muse - new born.mp3)