Há uma linha tênue entre o que sou e o que quero ser. Raramente sei distinguir essa linha, e raramente sei em que local me posto. Vez ou outra, esses conflituosos universos se fundem e me trazem um êxtase de satisfação, que vem acompanhado de breves momentos de lucidez acerca do meu próprio caos.
Preocupa-me ser perceptível esse meu particular imbróglio que se multiplica enquanto eu descubro cada vez mais acerca de mim, das minhas características, dos meus limites, dos meus defeitos, daquilo que permanece sempre inerente à minha vontade, daquilo que permanece inato à minha consciência, à minha existência.
Mesmo antes que eu possa cruzar a linha imaginária que se traça a separar-me do mundo, já se condensa em mim uma nostálgica sensação de não pertencer, de estar à parte, que vem acompanhada de um desânimo que me pesa nas pálpebras, no pescoço, nas cordas vocais, no corpo todo... Uma sensação de que sou sempre o ímpar que sobra. Que fica de fora. Que destoa. E consome-me uma impressão de viver sempre a repetição da minha tentativa frustrada em incluir-me completamente, sempre sucedida por uma decepção comigo mesma. Contranjo-me frente a minha ineficiência, e não há para onde eu possa correr e esconder-me de mim.
Temo que o corpo magro, pálido, curvo, que as roupas neutras, escuras, que os óculos postos, que as mãos nos bolsos... que nada disso impeça a percepção alheia dessa minha íntima confusão. E antes que eu possa me conhecer, põem-me em um ambiente qualquer com outros tão perdidos quanto eu. Mas como parecem eles se preocupar um tanto menos com o que me aflige desse tanto...!
O tempo de convivência e a repetição dos fatos subseqüentes possibilitam-me analisar o comportamento de quem me rodeia. Um descabido desperdício de esforços falsos, elogios falsos ou sorrisos forjados para que se mantenha a estabilidade de um ambiente agradável, a consumir a autenticidade, a humanidade. E eu sei que dentro de si a situação em muito não se difere. Forja-se uma essência pessoal para que se mantenha uma estabilidade e uma aceitação de si mesmo. Tudo se mantém sereno, enquanto se perde a cor, que se dissipa para dar lugar ao gris.
Como se houvesse luz demais no ambiente, eu me encolho, fecho os olhos, e apenas ouço. Contorço-me, quando todas as vozes parecem ensaiar para estarem parecidas, e ainda assim cada uma delas guarda em si um esforço para sobressair-se sem fugir do tom. É tudo tão semelhante, que os passos parecem ensaiados para a marcha ariana. E eu sinto que os rejeito, inconscientemente. Sem que eu me aceite, sem que eu me sinta bem com a minha situação perante a todos, eu rejeito quem me aparece no compasso daquela marcha. Rejeito já de olhos fechados, só ao sentir o aroma, só ao perceber aquela ânsia, aquela superficialidade nos olhares... típicas de quem nem sabe quem é, ainda. Rejeito-os, coloco-os de lado, reporto-os como algo que não me interessa. E me preocupa um tanto o tanto que eu me isolo com essa minha prática inconsciente.
Pois o fingimento em nada me agrada, e eu me recuso a pintar-me, a mascarar-me, a fantasiar-me, somente para encaixar-me harmonicamente em meio ao mundo que não necessita das minhas indagações.
Quanto à sensação de não pertencer? Quanto à sensação de aceitar-me enquanto o que sou, mas permanecer à parte de tudo o que me rodeia? Doem. Suscitam a dúvida. Dilaceram a precisão da fala. Calam a fala. Mas não se comparam ao incômodo infinitamente maior que eu já fui capaz de experimentar... Aquela sensação de pertencer, sem aceitar-me. Sem identificar-me, sem reconhecer-me. Aquela certeza de que me falta permanentemente algo, de que o que mantenho, não somente ao meu redor, mas principalmente em meio a mim, é falso. Nada me parece intrínseco, tudo se pauta em palavras ralas e superficiais, e eu sei que sinto um incômodo, sem saber ao certo de onde é que ele vem. Sinto sempre pulsante uma repulsão a mim mesmo, e ela já não me é válida, pois se infesta por todo o meu corpo que, entorpecido, cede, e implora, e indaga, e espera por qualquer espasmo que me traga de volta à minha própria realidade.
Sinto, de vez em quando, a minha alegria render-se, encolher-se, esconder-se. E eu aceito a derrota. Opto pela solidão, se ela for mesmo uma conseqüência do único modo de viver que me traz de volta pra mim. Apetece-me mais, por enquanto, o empate a assistir o sorriso abafado vencer o que eu sou. Espero o resultado definitivo, nessa prorrogação que parece não ter fim. E porquanto me foge o estímulo, o ânimo, a cor... E eu volto a sorrir a todos em represália do quê? Nada vence. Os meus olhos parecem sempre me guiar ao mesmo vazio. Mas não me misturo ao preto e branco; ainda prefiro o rubro do sangue puro que de mim escorre sem ter outro para se misturar, para se camuflar, para desaparecer.
http://colorimetria.wordpress.com/2008/06/27/report-as-spam/(this will destroy you - there are some remedies worse than the disease.mp3)