sábado, 31 de maio de 2008

Desconexos pertences.

Eu deixava-os ali. De lado, talvez. Não muito. Apenas o suficiente para não serem alcançáveis ao meu olhar, este sempre inconscientemente atento àquelas cores específicas que me remetiam a significados, instantes e diálogos passíveis de múltiplas interpretações à minha única mente. E era inútil tentar fingir que eu não os sentia de uma maneira distinta e pessoal. Esporadicamente eu fingia descobri-los. Fingia senti-los. Como se eles não estivessem claros o suficiente na minha imaginação insistente... Tudo uma mera enganação, pois em segundo algum eu havia deixado de saber que sentia o que me incomodava visceral e constantemente. Ainda assim, como se eles aparecessem e voltassem repentinamente, eu fingia descobri-los. Fingia senti-los.
Eles. Os objetos. E também as memórias que estes empreendiam em mim. Ambos já haviam se fundido em apenas um, sem me abandonar em instante algum. Estavam sempre ali. Eu quis virar o rosto, mesmo sabendo que eles estavam ali... encarando-me, esperando o retorno do meu olhar difuso. A saber, os tantos objetos foram por mim escondidos, em lugares estratégicos que eu própria escolhi, os quais eu evitava ao extremo. Em uma ligeira passagem, entretanto, a chave, a porta, a entrada não deixavam de importunar-me... de uma maneira mais sutil do que se eu as abrisse, mas ainda assim, importunavam-me. Eram incontáveis os objetos que impulsionavam as memórias dolorosas, até o meu próprio corpo chegava a me desagradar, mas a respeito deste, com o tempo acostumei-me. O meu rosto pálido refletido no espelho e as melodias carregadas de melancolia só acentuavam a minha dor, não a faziam nascer. Meu desvario se expandira de tal forma que matéria alguma escapara das minhas interligações paranóicas. Tudo fazia parte de um tormento que eu ampliei a dimensões maiores do que as minhas próprias. E pouco a pouco eu ia abrindo os tais abrigos estratégicos para livrar-me das memórias por um tempo próximo do tempo permanente, mas no instante em que o meu olhar pairava sobre o agente causador da lembrança, todo o meu corpo parecia desmoronar, tremendo, a mandíbula se rebatia e os dentes tilintavam em uma violência sem prazer, impulsionada pelo acerbo gosto das lágrimas que escorriam a enxaguar o meu rosto seco e doentio que fingia estar livre de quaisquer dores pretéritas. Essa agonia continuava até o momento em que eu apertava os olhos e tudo se estilhaçava no térreo, enfim.
Para andar no solo agora exige-se cautela. Muitos cacos permanecem apesar da ventania. Mas há o que não se guarde. Há o que não se fale. Há o que não se veja. E nesse infindável silêncio que me sobra, eu ainda insisto em pensar ouvir uma única voz familiar, que persiste em ecoar impiedosamente em mim.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

(Outros) pulsantes pensares.

Não foi repentino o modo como o meu todo se silenciou. Quando dei por mim, a luz há muito já havia escapado, e as poucas vozes que me afagavam, e as muitas vozes que me afogavam... todas elas se calaram gradativamente, sem que eu soubesse perceber. Eu me afastei das preocupações, das obrigações, das ilusões; para confiar apenas em mim, com o intuito de não me reduzir a tudo o que eu digo em relances de representação em que, não obstante, tento não me corromper se ouso levantar a voz numa vaga tentativa de externar-me fielmente em palavras vazias, que apesar de sua intenção, só me afastam cada vez mais, tanto de mim quanto do mundo. No meu silêncio, o todo se confunde, e no caderno a grafia torta é somente outra tentativa de representar-me a mim sem sujeitar-me a adaptações em razão do receio de julgamentos alheios; podendo, portanto, esparramar-me na mais profunda sinceridade que a linguagem pode oferecer pelas voltas grafitadas que os dedos transformam em cuidadosos contornos letrados, ainda impossibilitados de disfarçar os tremores do meu corpo trôpego. Tento não expor a minha falta de disposição, tento omiti-la até o suportável. Contudo, a partir da quebra do meu limite, quando já não agüento o acúmulo de falácias, faltas, rótulos, extrapolo-me em um grito bruto que eu mal reconheço0, e que surpreende quem se acostumou com a serenidade que externo do meu âmago conflituoso, caótico, intenso – os três são, sim, adjuntos adnominais, características já inerentes a mim, ao meu poder de escolha, ao meu propósito, à minha satisfação. Se peço ar, não peço espaço. Se peço tempo, não peço silêncio. Peço trégua, peço lar, peço reflexão, peço compreensão. Friso o insucesso das minhas tentativas em me integrar, sem deixar de querer afogar o cansaço em me auto-renegar. Abdico da suposta liberdade de expressão para calar-me e viver em paz, privando-me dos julgamentos de quem eu ainda não acredito poder me compreender. Prefiro o silêncio a me perder no que eu própria digo para tentar externar-me compreensível. Ao tentar descrever-me, eu altero-me e corrompo-me inegavelmente, e por isso prefiro o silêncio. Retenho-me ao êxtase de poder expressar-me nessas confusas palavras, que rabisco sem o propósito de alguém ler. Minhas rasuras denunciam as minhas incertezas, e eu já não me envergonho de que sejam muitas. O tempo me traz a sensatez, e me rouba a sensibilidade. Migram sutilmente e não são comparáveis, impossibilitando-me de julgar se estão intimamente interligadas, e muito menos se o tempo é positivo ou negativo. Já são poucos os que eu admiro, o tempo me fez aprender a observar e analisar o âmago alheio com cada vez menos olhares necessários. Às vezes, de soslaio eu já noto qualquer falsidade, que instantaneamente me faz desprezar o indivíduo. É bem verdade que são inúmeros os meus equívocos, e que em várias olhadelas de relance eu julguei o que não deveria julgar. Ainda assim, eu acabo por julgar, e acabo por trancar-me em mim. Qualquer convivência eu sinto tornar-se lassa, e afogo-me em solidão sem dirigir a ninguém algum apreço ou paixão, especialmente a mim.Os sonhos que eu alimentava se fundiram às memórias do meu passado, e em qualquer momento de lucidez eu percebo o meu equívoco em detectar aquilo que transcende na minha mente os limites do real. Certas vezes, eu prefiro essa minha loucura a perceber o vazio e o desperdício que eu ainda faço de mim.

Pulsantes pensares.

Reler alguns dos meus diálogos ligeiros e repletos de uma ingênua ansiedade é quase como observar o tecer de uma poesia que não esconde o quanto me aflige um coração que não teme os invencíveis desafios que me põem o tempo, a distância, a realidade, este lugar que me limita, e tudo o que não me envolve nem depende de mim.
Digo, certas vezes, que perco a vida constantemente, dando valor àquilo que tal valor não deveria merecer. Já o disse muitas vezes, apesar do receio de que o próprio interlocutor se sinta menosprezado. Nada nas minhas palavras deseja mostrar desprezo algum, mas apenas a apreensão por não conseguir enxergar além do crepúsculo que daí a alguns minutos logo vem.
Os meus momentos sós, que em época alguma foram escassos, provam-me de que cada sentimento meu é um paradoxo. Como se fossem colocados dois espelhos a encararem-se, meu olhar míope observa as imagens enantiomorfas de mim sobrepondo-se, anulando-se e completando-se ao se repetirem indefinida e infinitamente. Meus dizeres se contradizem involuntariamente, e na reflexão silenciosa eu os descubro como membros das infindáveis antíteses que me constituem como o que sou.
Digo – ou muitas vezes nem digo, guardo somente para mim – que desprezo os vis, os ignóbeis, os falsamente apaixonados, os vazios, os pseudos, esses todos que me rodeiam invariavelmente; mas, no fundo, quando declaro sinceramente que sinto que estou a desperdiçar a minha vida, digo também indiretamente, e sem saber, que invejo ilimitadamente esses mesmos a quem desprezo. Desprezo-os, e assim, desprezo-me por me contradizer em contrastes tão grosseiros. Nada do que sinto deixa de ser verdade, de ser sincero, mas a ausência de explicações acerca dessa contradição me abandona impiedosamente com a minha carência de atos, com a carência de caminhos por onde avançar. Invejo a semiconsciência, ou a ausência completa de qualquer consciência. Queria não ter conhecimento do meu vazio. Queria não ter conhecimento da felicidade. Queria não saber que o que eu vivo é pouco. Invejo a quem vive sem saber, sem se preocupar, sem se comparar. Estática, eu assisto à minha vida se esvair pelos meus dedos, quando julgo que apenas pensar não é viver. Estática, eu penso que o que vivo é, ao menos, verdadeiro, quando julgo que viver sem pensar não é viver.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Quando me cansa conviver comigo,

aflige-me o meu sempre se alongar tanto pelo passado quanto pelo futuro.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O que me sobra além de mim.

Foram poucos passos, pouco tempo, pouco chão. O ponteiro dos minutos não tivera tempo nem mesmo para inverter o seu sentido. As cortinas fechadas, as portas trancadas, a poeira divagava escondida na escuridão, quando fora surpreendida pelo estampido do molho de chaves que caíra no porcelanato, escorrendo pelas minhas mãos ainda trêmulas. Contudo, ao adentrar no ínfimo apartamento, a minha impressão era de que nada mais em mim pulsava da maneira brutal como factualmente pulsava, ainda em razão dos impulsos que causavam o chacoalhar intenso do meu coração doentio. Minha mente afundava na lassidão que me transmitia aquele ambiente sórdido, e todos aqueles recentes acontecimentos pareciam abandonados em um tempo muito distante, muito mais distante do que os quase três quilômetros caminhados que me separavam do local onde tudo se dera há poucos instantes. Tudo em mim parecia ter se contraído no choque súbito que levei ao me deparar com um local que eu teria de suportar a me abrigar por um tempo indeterminado (que, a propósito, prolongou-se a me roubar a vida por muito mais dias do que um dia eu pudesse imaginar). As falas por mim ignotas eu continuava a ignorar. Passei os dedos pelos móveis cobertos de pó, enquanto um turbilhão de lágrimas vinha à tona no relembrar insistente de qualquer vil frase dita sem pudor a mim. O silêncio da sala gris se esparramava sorrateiramente a me possuir, dando margem às milhares possíveis interpretações do passado, que ainda hoje eu faço a me autotorturar. E sem desviar da certeza indubitável, a minha cólera se desprende do meu corpo e contagia todo o meu redor enquanto cogito as infindáveis possibilidades construídas com o tempo que me sobra. E este, que se arrasta me roubando a vida sem pudor, passa e eu ainda reconheço em mim uma vontade issossa por qualquer ilusão, por um respingo de inocência e ingenuidade para que eu possa afogar-me em qualquer acontecimento vil que roube o que tomam de mim essas frases que ainda agora me atormentam. O que ainda me parece incrivelmente distante não deixa de alimentar continuamente o meu sofrer.
Reconheço em mim uma vontade insólita por preocupações, por obrigações, por qualquer compromisso para preencher o meu vazio, para me afastar de mim. Eu já não me agüento. As partes de mim que eu já conheço, eu repugno; eu engano a todos sem ser capaz de enganar a mim. Analiso, organizo, aturo o meu fingimento, observo a reação alheia, e mais do que tudo, observo meticulosamente a minha reação posterior, para depois, a sós comigo, poder divagar em estudos acerca do que faz de mim o que sou.
Eu invejo imensuravelmente o tempo em que entre os meus reclames figurava a falta de tempo. Já não vejo o tempo com indiferença, alegria, rancor ou como mera grandeza indefinida. Apenas o receio. No tempo em que me faltava tempo, eu aprendi gradativamente a manejá-lo, aprendi a lidar com ele para que não fosse mais escasso para a realização de minhas atividades triviais. Contudo, hoje o tempo que reservo para tais atividades é um tanto ínfimo, e o restante do tempo me sobra aos montes. O tempo acumula-se em meio à minha existência vazia que desperdiço ao divagar intimamente em pensamentos que descrevem ou analisam a minha personalidade pútrida e fingida. Sobra-me o tempo que me devora em reflexões estúpidas, que me desnorteiam ao desaguar em fins que concluem que nada do que eu externo de mim é o que eu realmente queria ser; ou ainda pior, não é nada do que eu sou, mesmo sem querer.
***
Nas vitrines eu não observo os vultuosos trajes, o meu olhar paira no vago reflexo do meu rosto pálido que mal se diferencia da parede fria que me encara lá de trás. Meus dedos deixam no vidro uma marca seca, frígida, os transeuntes que por trás de mim passam não me incomodam ao me observar curiosamente em meio a suas correrias. Enquanto me reconheço, não há mudança na expressão facial que demonstre qualquer espanto ou que desperte qualquer ânimo, permanece cíclica apenas a dúvida que guardo na memória: o que será mesmo que você via quando enxergava o mesmo rosto que eu via refletido ali...?

domingo, 18 de maio de 2008

E o vazio...

MAS O QUE INFERNOS ESTOU FAZENDO COM A MINHA VIDA?

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O que eu digo se contradiz.

O que eu sou se contrai. Entretanto, as ameaças que o próprio acaso faz a mim já não me abalam. Já lidei com tempos demasiado adversos e nem por isso sucumbi ao irreal. Descobri que a única metamorfose válida é a que provém das minhas próprias experiências. Por isso, mantenho-me inerte em meio às mutações de quem está ao meu lado. Proponho-me sutilmente para não receber de imediato uma acerba rejeição. Faz tempo que não solto o meu pranto por pouco, faz tempo que só me satisfaço por muito. Não me enxergo correta, apenas não me nego. Tento logo assumir o que de mim eu percebo, e deixo-o registrado em palavras que se mordem a disputar qual transmite a minha confissão no relato mais nítido. Agora, eu já cansei, já desisti de abdicar do que acredito real e verdadeiramente para tentar adequar-me aos ambientes hostis que me rodeiam, que me perseguem. Nego adaptações radicais, e talvez Comte me condenasse por tais declarações. Se tento esconder-me, é porque sinto que eu já não caibo em mim - ao menos enquanto eu esteja em ambientes dessa categoria. Não posso isolar-me por completo até encontrar o lugar, a hora e as companhias que se encaixem perfeitamente com o que sou, pois mesmo sem se considerar o fato de que eu não me conheço por completo para encontrar aquilo que seja perfeitamente consonante comigo, o tempo e o coração já se entrelaçaram em uma parceria para provar-me do quão humana eu sou, e das minhas necessidades sociológicas, que ardem no âmago a se equiparar às fisiológicas. O que emerge do meu caos sou eu, mas não sou eu quem emerge do meu olhar. As minhas palavras não transparecem a minha indecisão. O meu caos, certamente, transborda de mim por qualquer descuido. O meu grito é absorvido pelo travesseiro e se perde nos meus sonhos sem nexo que quase nada me revelam, e que se perdem em um inconsciente distante da minha memória. Às vezes, eu só quero alguém que por acaso agarre o travesseiro e não o jogue brutalmente contra a parede como tantas vezes eu faço.

Sinto que não tenho espaço para me expandir, para parafrasear em atos o que já li, para adaptar a mente ao corpo, para me descobrir estúpida, para me comparar a algo que comigo se assemelhe. O meu sorriso é absorvido pelos olhares de todos, enquanto o meu âmago permanece absorto. Não me prendo ao que ainda me parece falso. Não consigo. A cada manhã em que eu levanto sem acordar do desânimo, maior eu descubro a minha ineficiência em incluir-me naquilo que, essencial e visceralmente, não me contém. Eu me distraio com o meu próprio mundo tentando balancear o tanto que me envolvo com o mundo real, enquanto mensuro o quanto isso é necessário à minha sobrevivência. Roubam-me o ar e a alegria essas constantes transumâncias que as minhas pernas operam em busca de um lar que me abrigue, em busca de palavras que me confortem ou, ainda, que apenas expressem alguma compreensão, que confirmem algum pensamento íntimo meu que eu nunca relevei e que, portanto, eu nunca soube se era de fato compartilhado por outrem senão os escritores que pessoalmente eu desconheço. Já não me satisfaço com este êxtase de me encontrar nos ditos e feitos de quem eu não conheço. Eu compreendo-os, e apoio-os, mas não recebo confirmação nenhuma acerca da recíproca. Perco-me em mim, já não sei no que é que me apoio, e então dentro de mim eu falto, enquanto sobram-me as palavras que eu não lembro. Palavras estas para prosear acerca da confiança que deposito em uma parte de mim, íntima e secreta, abstrata e intraduzível; e também acerca da incerteza que tenho sobre as minhas próprias palavras engasgadas, sobre o acaso, sobre a ventura, e sobre o futuro, que não deixam de ser outra parte de mim.

domingo, 11 de maio de 2008

Mais com menos: menos. Menos com menos: mais.

Quantos dígitos eu colocaria dentro de um não. Quantos momentos, tormentos, lamentos, eu usaria para adjetivá-lo. Quantas dúvidas, lágrimas, mágoas, eu colecionaria para acompanhá-lo. Quanto silêncio eu envolveria em mim para não me afogar nas perguntas que se sucederam sem resposta. Quantas falácias eu amordaçaria para ver destroçado o que agora eu já não quero que seja meu. Quanto tempo eu desperdiçaria para retornar tudo o que ficou fora do lugar.
O meu idioma possui, entre inúmeras, uma palavra que para outro perfeitamente não se traduz. Uma palavra cuja significação denotativa falha, peca, falta. Só se entende sua significação após quaisquer experiências que envolvam o que ela representa; sem tais, a leitura do dicionário é inútil. Essa palavra, porém, de nada tem serventia a mim, cito-a apenas em razão de ser tão intraduzível quanto o que eu sinto. Por curiosidade, digo que esta palavra é "saudade". Nada tem a ver com o que eu sinto; sendo, entretanto, tão vaga, densa e ampla quanto. A ineficiência da linguagem me obriga a colocar o que eu sinto dentro de um não. Quando acerca do que eu sinto eu desejo prosear, eu empaco, paro, estagno. Assim, eu colocaria o que eu sinto dentro de um não. De um não só meu, que eu desenvolvo nos devaneios que me compõem e que superam a simplicidade do frio monossilábico.

É que eu noto que eu me nego constantemente, gradativamente, quanto mais eu me descubro, mais eu me cubro, mais eu me perco, mais eu me nego. Eu me insatisfaço com a minha satisfação comigo mesma; eu me satisfaço com a minha insatisfação com o alheio. Eu me contradigo, eu digo o superficial, eu guardo o intenso, eu omito o que sei. Eu me perco dentro milhões de rostos, eu me incomodo, eu me silencio. Eu me descubro como nada mais do que um não perdido entre a imensidão de sins cuja positividade não me afeta. O meu eterno não se destrincha nos devaneios que agora me compõem, comprimidos em uma única sílaba que ainda não expressa perfeitamente a minha contradição.

sábado, 10 de maio de 2008

Sobredizer.

Intrigante como os limites daquilo que sei são impostos justamente pela imensidão daquilo que não sei. Intrigante como eu me afogo no meu medo buscando qualquer sossego. Intrigante como eu adormeço tentando fugir dos meus pesadelos. Com relativo esforço, eu tento agir com discrição para não deixar transparecer o modo como eu não sei acerca de quase nada do que sou. Sem embargo, aparento certeza nas minhas decisões, ainda sem que elas se tornem falsas, pois a certeza é proveniente tão-somente da negação daquilo a que eu assisto desabrochar com um orgulho sistemático que repugno, o que desencadeia na construção do que penso que sou. E, talvez, seja melhor assim. A partir do instante que adquiro consciência plena sobre uma parte do que sou, agarro-me a ela em tentativas inseguras de me sentir mais palpável em meio à minha vaga existência, esta que se confunde em meio ao que digo e ao que deixo de dizer em um mundo que não externa dignidade suficiente para que com ele eu compartilhe as poucas verdades minhas que sei. Algumas verdades permanecem por muito caladas, algumas eu queria dizer, algumas eu queria esquecer. Persiste a me espremer uma névoa de incerteza que não só me cega como também esmaga o meu corpo todo, condenado a palpitar em consonância com os espasmos do meu coração confuso. As veias quase se sobrepõem à pele pálida e frágil cujo tremor já não é interrompido a partir de quaisquer toques. E já não sei se essa névoa vem de dentro, ou se vem de fora. Não sei se é ela que me traz tanta agonia, não sei se é ela que me alucina em desejos inconstantes de me transpor ao corpo que já não cumpre eficientemente a singela tarefa de me delimitar; como também não sei se é ela que me prende às minhas verdades em razão de um medo da recusa do mundo exterior. E que, por fim, acaba por me fazer sumir em qualquer dor minha que parece que não tem mais fim.
Eu escrevo umas tantas palavras que eu ainda não aprendi a pronunciar. Eu proseio um tanto de parágrafos descrevendo palavras que eu não sei significar. Eu atraio um tanto de dúvidas que destroço em adjetivos para um sentimento que eu ainda não aprendi a controlar. E o que eu sou se expande em algum lugar que eu ainda nunca consegui pisar, gritando-me em qualquer idioma que eu ainda não aprendi a decodificar.
Eu me perco em perguntas em que eu ainda nem pensei, eu me contradigo em respostas que eu ainda nem sei. Eu me afogo em incontáveis soluções para problemáticas que não são minhas, e me envolvo com sofreres que não deviam mais ser meus, sigo a me entreter com uns infindáveis versos que eu ainda nem comecei.
Às vezes, digo sem saber. Às vezes, digo só pra dizer que sei. Às vezes, não digo, mas sei. Quase nunca digo o que não sei. Mas quase sempre, eu só digo pra saber se sei. Quando acho que sei, digo; e descubro que não sei. E às vezes, escrever é o jeito para eu descobrir e distinguir o que eu sei e o que eu não sei, e pra eu aprender o que eu sei sem saber que sei.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O tempo não passa,

minhas falas desfazem o que outrora em silêncio eu concluí.

domingo, 4 de maio de 2008

Íntimas balbúrdias.

Eu forjo diálogos com o tempo, finjo ouvir o timbre de uma voz que eu nem recordo mais. Leio no muro branco recém pintado um nome me devora, mas depois esqueço. Deliro. Vejo no espelho um retrato difuso de um alguém que não me traz nenhuma lembrança. Eu procuro um rosto em que eu me extrapole, e um corpo em que eu me abrigue. Eu me afogo num arquivo de memórias que se exalam por todo o meu ser quando são despertadas pelos objetos mais tolos. Meus dedos arranham a minha face fadigada de mim, coberta por um suor frio que escorre impulsionado pelos tremores de fome, enquanto nada em mim cede a falsos sorrisos. Eu cansei de mim, talvez. Desisti de mim, talvez. Já não quero alimentar o meu tormento. E mesmo que eu não saiba bem ao certo o que me preenche, comprometo-me com aquilo que sou em um pacto que afugenta qualquer faísca de flexibilidade ou adaptação. Quis voltar no tempo para viver o tempo que ainda não é meu, ao reinventar desfechos para o mesmo ébrio adeus que, lentamente e a longo prazo, eu dei a mim mesma nos momentos em que não quis transparecer meus pensares distintos e acabei por de mim me perder. Simultaneamente à perda, concretizou-se a construção de uma certeza de mim que resultou em uma intolerância a tudo o que fosse comum, a tudo o que contrastasse com o que sou, e essa certeza de mim agora eu compreendo como apenas um reflexo da minha insegurança.
E me corrói o desprezo que o tempo aparenta em relação ao que sou. Em mim, destoa a heteroneidade da colóide que me compõe, que não é caracterizada como nenhum de seus integrantes, por fim. Mágoa, arrependimento, culpa, tristeza, insegurança, melancolia, desânimo, apatia, indiferença, incompreensão, incerteza, angústia, apreensão... Nada disso descreveria o meu vago intenso sentimento, sem não obstante deixar de ser parte dele. E em meio a tudo, o meu desespero em mim se resplandece, sem que haja limites para a sua gradação.

O que me insatifaz...

É agora me satisfazer diante da minha constante insatisfação comigo mesma.
É o fato de me compreender, de me relevar, de me considerar pouco diante do que ainda tenho a caminhar, de me proteger de dúvidas que me ponham a indagar ainda mais a situação em que me encontro, de me mergulhar em piedades de quem não me compreende, de não me compreender de maneira alguma quando tento abolir de mim qualquer tristeza que se estabeleça a destoar-me de um mundo amarelo e sorridente que me rodeia sem dó, sem nele me integrar.
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I'm just ok with the fact of not being ok.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Culpo a culpa.

Sou sempre eu quem cede. Sou sempre eu quem desvia na calçada pra qualquer um passar. Mas antes fosse só trocar de calçada, se o meu sapato não emergisse da terra completamente elameado, fazendo-me escorregar. As concessões aparentemente singelas que faço, no fim só servem pra me desequilibrar, pois eu só me movo porque o meu medo escurece o meu olhar, que de tão difuso me faz pensar que a calçada é um tanto mais estreita do que de fato é. De tanto ceder ficou em mim a sede. Pendem em mim uns tantos lamentos, em meio às lágrimas que afobadas querem se atirar ao chão. Falta em mim tudo aquilo que eu deixei de dizer com receio de produzir em outrem qualquer sofrer que se assemelhe ao meu. O medo que eu mantenho em mim se expande enquanto eu me restrinjo ao meu medo de me libertar mundo afora. E eu poderia suplicar ao mundo que devolvesse a minha alegria, sutilmente, liberando-a imperceptivelmente; mais cedo ou mais tarde eu ergueria a face para agradecê-lo. Entretanto, fica em mim essa pulsante vontade de enterrar todos os meus pecados no defeito humano mais profundo e sincero, que não obstante eu só consigo encontrar em mim, em todos os erros que eu já cometi.