terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Desconecto de mim.

Meus olhos espreitavam pela multidão buscando qualquer vulto ou borrão vermelho que surgisse na minha visão míope falha, a lembrança daquela camisa de cor radiante parecia consumir todos os outros resquícios das memórias que eu ainda guardo acerca de ti. A busca fora em vão, pois tudo continuou preto e branco, a brisa fria contorcia-se a se desviar dos numerosos corpos e me atingia em cheio, o corpo encolhido se movimentava tortuosamente pela rua abarrotada. Meu olhar é embaçado pelas cinzas de uma esperança que mesmo depois de supostamente desfeita continuava a me cegar, meu sorriso frio se esconde eternamente, comprimido por tudo que me reduz àquilo que o transeunte vê, minha passada desatenta que depois da tempestade deixa registrado todo caminho pelo qual eu me arrastei, essa imensidão que é tão mais veloz que eu esbarra no meu corpo que antes já cambaleava, e logo me cala diante do tempo que tanto berra e que se arrasta pelos meus ouvidos sempre que eu já não quero ouvir. Se eu dobro a esquina e a mim vem o aroma do teu perfume para me atormentar as memórias, ele tanto dói quanto o timbre da tua voz que ainda ecoa dentro de mim mesmo depois de tanto tempo em que tu já não vens para me chamar.
O meu desespero é vago e se apossa do meu corpo enquanto a paixão candente se ameniza devido a tanta frieza que agora é o meu ser. Tudo dói, ninguém diz sobre o que por dentro fala, e dentro de mim tudo também grita, mas permanece apenas a realidade passiva e silenciosa que me consome. A ausência de vontades me faz perecer aos poucos imperceptivelmente diante de todos que ainda me assistem a rir uma gargalhada frígida que já não ecoa na efusão do vazio que controla tudo o que nem existe mais em mim. Sempre parece perda de tempo cuidar do que morto já está, e tudo sobra na inabalável reflexão que me corrói nesse sofrer contínuo. A mente ri da decisão errada que eu tomei ao ceder aos batimentos desenfreados do coração, e na disputa nenhum dos dois cede para me satisfazer e o meu corpo se distorce, pois o coração se distancia imensamente do que a mente diz, tudo se opõe e tudo se repele e agora eu sinto apenas o ardor de toda essa repulsão da qual eu perdi o controle quando virei para trás para tentar olhar pela última vez o teu corpo que de mim se afastava sem nada dizer, rumando por quaisquer caminhos que eu já não posso seguir.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Triscar e sucumbir.

Na estante ficava caído o teu retrato que mesmo tampado continuava claro e concreto na memória que não queria de mim fugir, fazendo qualquer olhar forjado sumir, era sempre o coração a se rebater em mim. É tão cedo para dizer que o tempo levou a poeira que o retrato deixou na prateleira, dessa afirmação eu sinto o meu corpo abdicar para de tudo não desistir. O passo disritmado não mente a dor enquanto eu piso uma passada contorcida e carregada de ardor. A agonia me apreende em tudo aquilo de que eu corro querendo incessantemente me afastar. Uma por uma as árvores passam, os galhos e as folhagens não impedem a chuva de cair em mim. Eu quero sair daqui, quero por quaisquer saídas conseguir fugir, escapar logo daqui. As buzinas não me alertam, os assobios não erguem a face, o braço só se levanta para fazer sinal para o ônibus parar. As escadas imundas não levam a lugar nenhum, do parapeito o meu corpo espreita se há alguma estreita passagem por onde o magro corpo possa se esvair dali. O céu nublado espanta a rua e esconde a luz que traria o calor que a minha alma já não sabe parir... É que já não há por onde tirar o que não existe mais dentro de mim. Na calçada desnivelada fica um poço d'água opaco, nele se esparramou a lágrima, um reflexo fosco do vazio que sou.

Ainda pulsas em mim.
Ainda gritas em mim.
Ainda dóis em mim.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Desesperança é o que resta.

E ao ler tudo o que é de minha autoria e que já ficou para trás, vejo que a lucidez acerca do meu estado nunca me abandonou, mas nunca foi suficiente para que eu me levantasse do sofá para tomar alguma atitude que mudasse a constância da minha insatisfação comigo mesma. Vejo que em momento algum eu não me dei conta do que acontecia comigo, e de certa forma eu sempre sabia o que estava por vir, o que porém não evitou que o desagradável acontecesse. Eu quero uma música assim, o ápice do desespero, pra eu me perder de mim e poder mesmo me afogar, porque tanta lucidez parece que só me acompanha pra pior me deixar.
Now playing:
Adriana Calcanhotto - Metade.mp3
Radiohead - All I Need.mp3

Os inquietos devaneios (sobre a solidão) II: O meu coração me trai contigo.

Como era cretino o fato de ser justo aquilo que me desesperava a cura mais óbvia para a dor. Não obstante, não seria a cura mais eficiente e sensata, mas eu sentia que o meu coração já implorava pelo fim do ardor. E por mais que em mim persistisse a certeza de que era essa a minha mais visceral vontade, eu sabia que esse intuitivo desejo, ao se concretizar, traria-me talvez de volta o sorriso, mas arruinaria a legitimidade de tudo o que se passava pela minha mente naquele momento, roubando-me a lucidez e deixando o tempo se arrastar muito menos violentamente, porém fazendo com que eu me esquecesse do que outrora me fez tanto sofrer, possibilitando a persistência da minha ingenuidade para que eu errasse novamente sem nada aprender. E apesar de ambas as decisões possuirem prós e contras, eu sabia que para o meu coração, que sempre me rouba a cena, não haveria hesitação na hora de escolher, pois mesmo antes do juízo final tudo em mim já pulsava tão lentamente que eu não saberia me precaver quando chegasse o momento de finalmente decidir entre escolher não sofrer ou me escolher.

Os inquietos devaneios (sobre a solidão) I: Tudo que eu toco me dói.

Os livros na estante, eu os olhava perdidamente com medo de que não fossem o bastante. Desde que a minha alma cálida se despedaçara diante do pior fim que o acaso pôs à minha incerteza, a áurea daquele ambiente que me pertencia não deixava por nenhum instante de ser tão frígida, apunhalando-me a cada vez que as memórias eram despertadas por objetos que superficialmente deveriam ser inofensivos à mente de alguém. O meu corpo fraco vagava pelos cômodos sem encontrar nada que espantasse a minha melancolia, a dor era suscitada por meios inóspitos dos quais eu não sabia livrar-me sem ter receio de que me pudessem ser essenciais mais a frente. A fuga era sempre ingênua, e quando a porta se abria com o vento desbravador da manhã, nada esvaia a frigidez que me rodeava. A pouca natureza roubada pelos arranha-céus não me abrigava em meio a tanta correria e pressa de quem me ultrapassava na calçada cinzenta e encharcada pela chuva do dia anterior, e o meu olhar cabisbaixo apenas retribuía a indiferença. Os trovões não me tiravam a calma, a tempestade não me lavava o âmago, a brisa não me trazia frescor, o guarda-chuva continuava esquecido no fundo da mochila carregada com uma indolência que eu levava para todo canto. Nada me acalmava, o caos cotidiano não me incluía, e os sorrisos de gente que eu conhecia se tornavam apenas espelhos de uma alegria rala e falsa, mas que eu já não era capaz nem mesmo de forjar. O meu corpo se entregava aos corrimões, às paredes imundas, e por fim ao sofá empoeirado, mas o tempo passava me arrancando a juventude sem que nenhum dedo, em especial o teu, viesse tocar a campainha para me libertar.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Reflex of reflection.

You don’t need to ask to know that I’m bleeding.
One part of me is already giving away
All hope words I'm not really used to say.
Looking at the mirror is even more bitter now
That I'm chasing the wrong hints in the rest of my life.
All of my stupid wishes came again only to fall apart
But I'm quite aware of being left in the darkest side of the eclipse
And my body is too tired to run with me to somewhere nice.

It feels like disappointing the fans on the last shot
And although this is the most repeated mistake I make
After all, inside my soul this isn't even near of what hurts the most
All the times I remember the causes of this past wasted chance
It always burns in me a terrible hate, leaving me down with no feith.

I can't take my own weights anymore
I won’t even try deceiving troubles like I did before.
I feel my past looking at my window and knocking at the door
Always laughing about the way I can't handle with my own disgrace
Did you really think I could ever take?
I can't even breathe with all these ashes blinding my face
I know my soul's not in the same step that I take.
There's not a light in the end of my road
I can't change the rules but I'm still not changing my mind
And now I can't even try to deal with my fool cry
I know only the light of your eyes make my heart shine in this dark.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Retrato.

A tremedeira sinaliza quando vem a mim o que eu não quero mais.
E só o ligeiro olhar no relógio já consegue me tirar a paz.
No balanço do dia vazio fica o tempo e eu me lembro,
E sempre que isso eu não quero, o esforço é assim tremendo.

Eu fecho os olhos e só vejo que já ali vem o medo pra me devorar,
E no bolso eu não sinto a chave pra abrir a porta e me refugiar.
Quando eu me levanto eu vejo que o mundo não ficou pra me esperar
No meu peito fica estampado tudo o que pesa a me desacelerar.
O que já me ultrapassou me dilacera até a nudez parecer me adornar,
E a essa hora eu já não quero o tempo a me despir na minha frente
Já é tão tarde para eu me ver e descobrir que eu não sou valente
Já não vale a pena assistir ao meu passado a me derrotar.

Eu fico aqui sem saber onde é que é o meu fim.
Nesse jogo eu só quero uma chance pra eu poder roubar de mim
Pois no meio do caminho eu já não sei se eu corro,
Ou se paro à porta mesmo sem a chave pra poder entrar
Só pra arriscar e ver se logo atrás tu vens pra me deixar passar,
Pra eu assinar contigo um pacto e no teu passo te acompanhar.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Deixar de lado.

A sala já era por todos conhecida. A rachadura no canto superior direito que atravessava a sala até a outra extremidade inferior, o imenso quadro azul já desbotado, a mesa que se desmantelava no mínimo de semana em semana, as cadeiras apertadas e enfileiradas, tudo. Tudo era tão conhecido que tornava o ambiente cotidiano quase entediante. Quanto o silêncio era dever, não havia mais nada novo para se descobrir e observar. Vez ou outra algumas folhas se prendiam nas janelas de vidro, ou nelas então os passarinhos deixavam a sua marca, mas nada muito maior do que isso, pois até a mudança do local da lixeira se tornava um incômodo em meio à tanta sistematização.
Aparentemente, os freqüentadores da tal sala se conheciam entre si tão bem quanto a cuja, mas tudo era uma impressão que tornava mais fácil, porém não melhor, a convivência constante. Havia os grupos, mas mesmo dentre eles, a intimidade era, até mesmo para os próprios integrantes, forjada, pela simples necessidade humana de não se isolar por completo. Quando põe-se a lupa focada corretamente nas relações sociais que se estabeleciam e se mantinham, estáveis ou não, tudo era visto de uma maneira absurdamente mais profunda do que a impressão que elas causavam, como se lhes desse cor; quando na verdade fazia-se justamente o oposto, e o foco das nossas atenções então se direcionava para uma outra perspectiva de se ver a mesma imagem por ângulos que nos possibilitassem reflexos distintos.
No fundo, todos faziam o mesmo, até aqueles que já haviam utilizado a lupa e se livrado da imagem ilusória, pelo fato de serem humanos e não fugirem à contradição que todos nós somos: individualistas e sociais extrema e simultaneamente, guardando essas características que teoricamente se separam em partes diferentes dentro de nós, mas que se misturam na prática em nossos comportamentos e que por fim geram a sociedade que nos inclui. Nada é de fato amizade, afeto, sentimento, isso tudo é radicalmente raro, mas não inexistente, a ilusão está apenas e tão-só em se considerar que tudo isso é abundante para cada um. Na verdade, o que nos move é a necessidade, tão humana, de se socializar e de colocar em prática tudo aquilo o que se é apenas dentro de si, enquanto os ouvidos são mantidos atentos a elogios que possam nos confortar e nos dar confiança para seguir em frente da maneira que somos. O orgulho não pode ser escasso para que desistamos e/ou para que decidamos tomar rumos distintos daquele que sempre fora o nosso rumo real e verdadeiro. Não pode também ser excessivo o orgulho para que nos ensurdeça em relação a críticas pertinentes, nem para que nos cegue perante ao que somos realmente: repletos de defeitos dos quais é inútil fugir. Defeitos, erros, vergonhas, arrependimentos, culpas, tristezas que ficam trancafiados dentro de nós e que raramente são externados em um grito quase de alívio e apreensão simultâneos. E tudo o que permanece aprisionado é o que justamente nos afasta de quem nós julgamos estar ao nosso lado, mas que na verdade está por trás de barreiras que nós mesmos criamos e somos.
Toda relação se torna, assim, superficial. Os defeitos são jogados para debaixo do tapete por conveniência e se mostram apenas os nossos interesses e tudo o que é mais palpável, tudo o que nos aproxima, tudo o que nos agrupa em meio à imensidão que cada um de nós é, tudo o que nos diferencia em meio à imensidão que todos nós somos. A socialização tem como meta a constituição de meros tapa-buracos que nos escondam da solidão e de nós mesmos, pelo tempo que der, pelo tempo em que for suportável manter a impressão de manter as relações instáveis eternas para nos estabilizar.
E na última carteira do canto direito da sala, enquanto o professor de espanhol fazia piadas sobre o aluno narigudo, esses pensamentos invadiam a mente dele com uma velocidade descomunal que o desnorteava quanto à realidade que ainda o rodeava. O corpo estava largado na cadeira, por entre os dedos girava a caneta esferográfica preta, o caderno repleto de rascunhos de tudo o que havia transpassado a sua mente naqueles momentos. O olhar estava fixo na rachadura do teto, mas como se os olhos estivessem fechados, ele já não prestava atenção. Notou um movimento do garoto da cadeira ao lado, que comentava algo sobre ele com o amigo que sentava a frente, e que logo olhou-o para notar no seu olhar focado na rachadura. Se lhe chamassem de autista, excêntrico, estranho, esquisito, nada disso lhe feriria de verdade. Cada vez mais ele se tornava mais alheio a tudo, pois sentia nas relações que ali se pautavam, um individualismo ainda maior do que o seu isolamento. De repente via todas as carteiras colocadas enfileiradas e via naquilo uma falsidade que superava a sua frieza perante a todos, como se todas as relações ali existentes tivessem sido criadas apenas por uma espécie de sistema de trocas, onde são negociados o tempo, as palavras, os elogios, a companhia, a imagem, a confiança, o sorriso, mesmo que tudo isso se esvaia a partir do momento em que surja nas vidas dos integrantes algum impedimento, ou alguém que preencha melhor o lugar de companheiro. Ele se sentia alheio, mas era o único modo em que se sentia fiel consigo mesmo, apesar. Já não queria fingir que queria algo com aqueles que o rodeavam, já não queria fingir afeto, admiração, compreensão, companheirismo, nada. E ele se sentia só, mas ainda se sentia bem, e já não importava o que o garoto do lado iria a seu respeito falar. Não era um egoísmo, era uma vontade de organizar-se por completo antes de mergulhar naquele imbróglio que se constituia por aquela pequena amostra das relações sociais tradicionais, pois não queria se entregar àquilo sem antes saber do risco em que se meteria, para então tentar encontrar submerso naquele universo ilusório alguém que também buscasse um índice menor de falsidade como ele há tanto tempo fazia.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Autobalanceamento.

A verdade é que me sinto pouco. Aliás, eu me sinto muito, e por isso me sinto pouco, insuficiente. Sinto que o que deveria me pertencer acaba sempre por fugir de mim. Sinto que tudo o que me compõe é superficial. Tudo é abstrato e interno demais preso ao meu corpo, como se fora de mim não houvesse espaço bastante para caber o que não existe de fato concretamente dentro de mim. Sou pouco, peso pouco, sou dispensável em qualquer ambiente que me abriga, apesar dos olhares que de viés me encaram. Sou pouco. Pouco para ter cor, pouco para família, pouco para amigos, pouco para a universidade, pouco para ciências, pouco para o amor, pouco para sentir. Sou pouco, mas sinto muito, e em mim agora me falta espaço para ser.

Um perdido olhar.

Ele ficava atordoado com a impressão de que todos os olhares hostis o encaravam de viés em avaliações críticas às quais ele era indiferente, mas ao levantar suas pálpebras pesadas, o porto ainda estava deserto, e a luz dos postes que refletia na água iluminava o ambiente que contrastava com o céu profundamente escuro; a cidade impedia a manifestação das estrelas, intimidadas pelas tantas propagandas, que também faziam a sua testa doer. E em primeiro plano roubava a sua atenção a sua própria velha bicicleta vermelha que ali ele largara para quando o corpo palpitante finalmente dali resolvesse fugir.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Desengano co-rompido.

Dizem que o sol não se demora tanto para surgir pelo terraço
Mas a pupila que já não dilata me confunde dentro de mim.
Num segundo eu me perco em tudo o que eu faço
E nas ruas tudo fala, mas nada nunca diz.
Eu já não sei que esquinas eu devo dobrar
Até encontrar as palavras que poderiam explicar
Para mim mesma o motivo de me fazer assim tão mal
O aroma dessas coisas que eu já nem sei se são minhas.

De mim tudo foi e tudo ainda assim ficou,
Os traços no caderno são só rabiscos que eu não reconheço
A nostalgia quando vem me disseca até a alma
O tempo quando corre tanto dói que nem sei se mereço
Vem me ultrapassar sem pudor pra roubar a minha calma,
Pra deixar em mim uma memória que de mim nunca se solta
E me sobra só um resto de certeza de que o sorriso não volta
Até a hora em que eu reconstrua as cinzas de um alguém
Que um dia eu ainda cheguei a chamar de eu.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

E em mim me consumir (até sumir).

Quando veio me abarcar essa tristeza
Eu já não sei dizer se eu não tinha defesa
Daquilo que um dia tapou a vil indiferença
Que agora sem querer eu já não sei abandonar,
Mas sobre isso eu nem precisaria pensar
Se não houvesse em mim um inconsciente martírio
Que se apodera de mim sempre que eu não sei perder
(de) tudo o que já cheguei a pensar que me faz vencer.

É, eu nunca fui mesmo de me importar,
Mas eu continuo assim no mesmo lugar,
Sem saber como poderei focar o olhar
Na perspectiva certa de me reencontrar
Em uma essência que eu já nem sei
Em que momento o vento passou pra levar,
Se é que algum dia eu já fui mesmo capaz de me achar.

Já não sei se é somente dentro de mim que ainda soa
O eco da repetição dos erros que eu já cansei de cometer,
Ou se o ostinato dos tropeços que me tiram a firmeza
Ainda continua mesmo possível de se escutar.
Mas já não importa qual das duas de fato aconteça,
Pois qualquer que seja só se ouve caso do aviso eu mereça
Mas agora o ruído está indubitavelmente a me atormentar
E eu só quero qualquer silêncio para poder me levantar.

Quando é que vem o outono para afagar a alma,
E para enfim o meu espírito poder se deleitar?
O meu corpo ainda cambaleia sem encontrar firmeza
Em quaisquer terras em que o pé eu possa fincar.
Se depois de tanto tempo eu já tenho a percepção
De que sempre se repete o momento de ir embora,
Procuro ainda qualquer vilarejo que seja a calma e não a fuga
de problemas que tornam esquecidos os problemas de outrora
E que, disfarçados, terminam sempre com o vazio na solução.

E sinto sempre então que estou aprisionado
Em um escarioso corpo fadado a me abrigar
E se os traços mudaram desde a infância
Aos meus defeitos sobra apenas a constância
E o mesmo gole de café que me mantém de pé
Impede-me de afastar-me num descanso para depois voltar
E olhar tudo o que eu errei ao deixar para trás,
Tudo o que agora insiste em me roubar a paz.
De que importa se eu conseguir impressionar?
Pois fora da verdade que sou já nada vale e tanto faz.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Agonia menor de idade.

E eu já não tenho na voz ênfase suficiente para descrever o quão insuportável é permanecer por aqui. Toda a agressividade das ações que sem porquê desencadeavam em mim motivadas apenas pela fúria de quem teve um dia ruim e agora precisa descontar toda essa raiva em um alvo qualquer já não é párea para competir com o mal estar do meu espírito conturbado. É ainda pior isolar-me de tudo e refletir que não adianta iludir-me pensando que a causa de tudo é um dia desagradável, se na verdade ambos encontram-se no limite de uma convivência possível e já não é lúcido negar o que apesar de não ser tão claro e óbvio a olhos não muito atentos, em contrapartida grita às nossas costas para que não seja esquecido. Não há muito que se possa fazer na posição de filho, principalmente quando não se sabe a maneira correta de expressar a opinião maçante que corrói os meus sentidos na hora de exprimir ela mesma. Quando tudo já parecia desabar em mim, o incômodo calor da rua que fervia o asfalto seria um alívio comparado à tensão abafada que me aclamou logo que meu pé suado envolto pela meia e pelo tênis de camurça pisou o granito. Respondido o questionário sem muita calma, a porta do quarto trancado não me afastava de fato do resto da casa. Pela fresta da porta o clima de mágoa se estabelecia também pelo cômodo mal iluminado, a escassa luz da lâmpada doía nos olhos e aumentava a dor de cabeça, o escuro absoluto era tão mais confortável. Abertas as cortinas, pela janela o mar não vinha para esvoaçar minhas angústias para longe, mas pelo contrário, o cheiro de tinta, o concreto esquecido na borda da grade e o capacete de pedreiro enfatizavam que o mar não estava perto daqui para constituir consolos quaisquer. De repente sem bater à porta ele entrou novamente e berrou qualquer ofensa, batendo a porta e indo embora jantar em qualquer outro lugar. Acabou. Mais um dia, tudo havia terminado, no dia seguinte todos amanheceriam com um “bom-dia” forjado na ponta da língua para fingir que tudo já estava esquecido e perdoado por dentro de cada um. Em mim, porém, a mágoa parecia persistir, e quando a reflexão trazia ao meu âmago a culpa, era inevitável não voltar para mirar o olhar para o chão e pedir desculpas. Na mesa estavam jogados os livros abertos com inúmeras páginas amassadas, os lápis ainda por apontar, o computador empoeirado, a régua, o compasso, o esquadro, todos impossibilitados de medir quanto faltava para o dia em que eu me viria livre de toda aquela imundície. Nada me incomoda tanto, porém, quanto a idéia de que toda essa hostilidade tem consumido também a minha essência e acaba por me influenciar sem que a minha consciência me alerte de que tudo está se apossando também de mim, e apenas a minha vontade de me manter afastado já não é suficiente para que de fato eu me isole por completo. Àquele ambiente eu sabia que não pertenceria jamais, mas eram de tirar o fôlego os momentos em que na minha própria fala eu detectava sinais das ações características daquele lugar que eu julgava completamente rejeitado por mim. De repente eu sentia em mim que não conseguiria jamais me livrar por completo de tudo aquilo que eu abominava, e doía ver que aquilo que eu queria ser nunca seria obtido se eu continuasse preso ali, e em meio a uma dependência insuportavelmente pueril, o meu coração batia forte mostrando que o que eu deveria ser ainda não cabia em mim.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O porquê da calma fugir de mim.

Se caso algum dia tu ainda venhas perguntar-me a razão do fim da harmonia das palavras que já então fluíam, poderei enfim falar-te, talvez já livre desta minha loucura, que estava eu no limite de mim enquanto qualquer traço da expressão facial e cada gesto dos braços forjava uma tranqüilidade que não poderia estar mais afastada de mim, e então a pressa fora que eu mais ligeira para arruinar toda a sutiliza que era o modo como tudo deveria ser dito, e num repente meu coração submergiu ao notar que o timbre falhava, que a voz gaguejava, tudo devido à alma que ameaçava violentamente abandonar por qualquer saída o corpo que a prendia em uma insuficiência para tanta ansiedade por se livrar da gradativa apreensão por tentar revelar sem causar-te nenhuma dor, e enquanto a tua inocência era percebida num olhar atento de quem só esperava ouvir um pedido de perdão, o ápice da minha culpa foi um estampido no céu da boca seca, a garganta que parecia queimar empurrava para fora de mim palavras pontiagudas que soavam sem sentido, e em meio a toda essa agonia já não havia bolsos para enfiar as mãos que tremiam perceptivelmente, e quando em mim nada se agüentou e a alma pareceu enfim escapar do corpo em um desmaio, o eu todo desabou, acabando por deixar a dor escancarada, livre para se esconder agora também dentro de ti.

A consciência repelindo timidamente a paz.

Quanto tempo levou para por dentro eu ver nascer
Uma repulsão a tudo que não já pertencesse a mim.
Não está nada bem dizer que estou quase bem.
Quanto tempo levará para eu livrar-me do orgulho e dizer-te,
Nesse timbre vergonhoso que contém a minha estúpida voz,
Que já se altera só com o tremular de uma reflexão sincera
E que jamais poderá confessar-te sem deixar de ser atroz,
Que nada disso eu farei teu também
Porque nada disso eu queria ser também.

Quando a minha lágrima também é tua.

E cá tu vinhas a correr desesperadamente para tirar-me a areia dos olhos inchados de pudor e mágoa, enfiando na íris teus dedos trêmulos que os faziam arder um tanto mais, enquanto ainda consumias o resto das tuas esperanças nas tentativas de arrancar-me à força o coração que ainda se prendia ao peito a pulsar freneticamente em um corpo fadigado que já não era capaz de recompor-se para estancar o próprio sangue perdido, e agora a ausência dele se fazia sentir em cada membro do meu corpo fraco, empalidecendo-o na proporção da própria dor, que se espalhava misturada ao sangue frio no chão escorregadio que outrora eu pisara com a segurança de uma inconseqüência ainda mais precisa do que a própria surdez a tudo o que tu ainda querias dizer-me.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A efemeridade de uma vida inteira.

Como parece minúsculo o brilho da estrela diante da imensidão. Quanto mais tu aproximas o olhar, maior seria o brilho e assim tu tomarias consciência do quão grande é a estrela, isso somente se o brilho não fosse tão intenso a ponto de cegar-te antes que tu pudesses constatá-la tão enorme. O teu caminho fora desde que nasceste delimitado por densos e enormes arbustos que há muito estão postos ali sem que em momento algum tu pudesses percebê-los ou escolher a respeito de sua presença, selecionando, portanto, o que tu enxergarias. Tu não escolhes justamente por julgá-los naturais e imutáveis, o que eles de fato são, e tu então não vês nem mesmo razão para sentir-te incomodado ou manipulado. E os arbustos impedem-te de ver como foi tudo o que já ficou para trás e que foi vivido por quem também não sabia como seria o que está agora a ser vivido por ti. Tu não sabes se ainda há tempo por vir e se te convém viver mesmo agora - entre aqueles específicos arbustos que te rodeiam -, ou antes, ou depois, tu não podes escolher, o agora já te fora entregue e imposto quando tu foste concebido.
Os homens se sentem demasiado vulneráveis às tempestades que apenas os arbustos já não são capazes de suportar, e constroem muros resistentes que crescem cada vez mais, à medida que cresce também a necessidade dos homens por evoluirem e serem maiores, melhores. Tu nasces no porão e sobe a escada a cada passo imponente que dás a partir da experiência que tivera no degrau que agora tu já sabes como pular. Tu sobes e tens a impressão de que estás cada vez mais perto do último andar, do último degrau, daquele onde não será mais preciso esforço, onde tudo será estável e pacífico, tu tens a impressão de superar todos aqueles degraus e obstáculos que foram postos propositalmente para o teu crescimento, mas é tudo ilusão, pois tu nunca saberás o que há por trás das sólidas paredes de um agora que nunca te abandonará. Tu, ofegante, paras certas vezes em uma janela qualquer para absorver o ar que parece faltar-te. Tudo é escuro demais para que tu possas distinguir o solo do céu. Tu vês as estrelas, minúsculas, como que imóveis no céu. As estrelas que parecem paradas não estão, as estrelas que tão distante que estão podem nem mais existir enquanto tu as contempla, mas tu não o sabes.
Se tu tentares aproximar-te, o brilho te cegará por bem. Se tu constatasses o quão grande é a estrela em comparação ao teu próprio corpo fraco, não terias motivação para continuar tentando igualar-te a tudo aquilo que está imensuravelmente mais alto que ti. Tu não queres ver, e quando tu começas a ter a impressão ou apenas uma vaga idéia do quão grande é tudo o que já está longe do teu alcance, tu fechas os teus olhos com medo de descobrir que na realidade nada importa o fato de tu estares ali. E se tudo fosse claro o bastante para que tu pudesses ver não só o céu como a vida e o horizonte que está as tuas costas e também em frente aos teus olhos, tu concluirias que não importa o quanto evolua a tecnologia que o homem aprimora para tentar enxergar de modo menos difuso o que há ao seu redor, pois as vidas que se renovam constantemente em um trabalho permanente são deveras efêmeras para que um só indivíduo possa perceber e fazer perceber o quão insuportável seria viver sem relaxar as pálpebras quando a estrela parece próxima demais, e então pudesse ser notada a singular insignificância de cada ser que guarda em si uma dose do orgulho comum. Tu nasces, vives e morres num saber inconsciente de que a contemplação daquilo que na tua escala é imensurável só te trará a certeza de que é menos doloroso viver mergulhado em ilusão.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Lost decoy in despair.

I feel like a blind following the way the whistle's echo made.
I'm bleeding and I need to call an ambulance with no delay
But please make it come in silence so I won't lose my way.

I listen to the ring and put my right foot on the floor
I think about a prayer where I’d ask for a better day
I can't concentrate as I wait ‘til six o'clock to open the door
The world is swallowing me before I could get out of the hall.

The metronome'll never measure my fear of the consequence
Of giving the wrong answer to people who bumped into me
Walking in the streets looking for the right hint to follow
Without knowing of how lost I am and about the mess I did.
The metronome'll never measure my heartbeats frequency
When I turn the corner and I found a hurry body
Of someone I meet that now I need to greet.

They used to play me a trick and joke at my face
They laugh about the name I can't erase
But now that the childhood is gone
They’ll laugh at me about something I’ve really done.
And I'm always faithless in this endless game
For me there's nothing left but a bitter chance
To stay awake drifting with a silent complain
While I watch their vanity and feel a no reason shame.

Would you whisper in my ear everything I want to hear?
Even when you try to pretend you comprehend me
Your voice could never bring me any peace
When you come back and stab my loneliness it's just a dream
You would only steal what was making me breath
That my spirit seems to be using to fly away from me with
If you keep this way the wounds you made will never heal
Can't you just leave without the need for me to appeal?
Now I’m so sure you’ve never bled like I did.

I'm still where one day you said you'd leave
And somehow I only feel true to myself
When I admit that I'm lost since I saw you walking away.
I get fooled when I always run from one problem to another
And as usual hard times are faithfully beside me.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Overview at the fifth stop.

As my memories never seem to say the last goodbye
I’m the one that goes downstairs and tries to run away in time.
The tube's motionless but I still feel my own car passing me by.
Maybe inside me there’s a heartbeat that would show me why
I still feel a deep strength that moves me until I can realize
that the wind on my face is really getting the tears dry.

I want to drown me until I get in the basement floor
under everything I already built to be me, without knowing of.
I want to turn off all city lights that move beyond the glass door
While my sadness fills all the empty benches of the town
So that in darkness we could see the shining sky behind the clouds.

People look at my face just waiting to get my place
In the middle of the crowd I can’t listen to my own sigh.
The freight car that carries my life is always overturning
and messing up everything inside my heart.

Even though I don’t know why I need to be driving away,
I feel uncertain about being in the right rail.
And this is what my soul could never stand,
Hitting my own life and running with nowhere to hide.

I look out of the window and try to find the echo left on the streets
From the surviving dreams I’ve forgotten there while I ran asleep.
I’m shivering just to know if I’m taking the right bow,
I’m tangled up with the idea of being in backwards direction
I’m so tired I can’t trust my sense of perception
Do I really need to stay awake if every day
I get up only to watch the sky turning gray?
I’m hoping the breeze will whisper in my ear
which is the right way for me to follow, so I’m silent until I can hear.



A step behind where I should be.

I’ve been walking through abandoned avenues.
I’ve been looking at bottomless dark views.
I’ve been running away in endless empty fields.
I’ve been just wasting legs and wheels.

I’ve been just watching the flying time
As the sun is setting by the horizon line,
There’s nothing left to find that isn’t already mine.
You say you can see right through my eyes
But you can’t heal the wounds you made deeply inside.
Take me alive, take me somewhere nice
Where at least I could feel my eyes still shine.