Meus olhos espreitavam pela multidão buscando qualquer vulto ou borrão vermelho que surgisse na minha visão míope falha, a lembrança daquela camisa de cor radiante parecia consumir todos os outros resquícios das memórias que eu ainda guardo acerca de ti. A busca fora em vão, pois tudo continuou preto e branco, a brisa fria contorcia-se a se desviar dos numerosos corpos e me atingia em cheio, o corpo encolhido se movimentava tortuosamente pela rua abarrotada. Meu olhar é embaçado pelas cinzas de uma esperança que mesmo depois de supostamente desfeita continuava a me cegar, meu sorriso frio se esconde eternamente, comprimido por tudo que me reduz àquilo que o transeunte vê, minha passada desatenta que depois da tempestade deixa registrado todo caminho pelo qual eu me arrastei, essa imensidão que é tão mais veloz que eu esbarra no meu corpo que antes já cambaleava, e logo me cala diante do tempo que tanto berra e que se arrasta pelos meus ouvidos sempre que eu já não quero ouvir. Se eu dobro a esquina e a mim vem o aroma do teu perfume para me atormentar as memórias, ele tanto dói quanto o timbre da tua voz que ainda ecoa dentro de mim mesmo depois de tanto tempo em que tu já não vens para me chamar.
O meu desespero é vago e se apossa do meu corpo enquanto a paixão candente se ameniza devido a tanta frieza que agora é o meu ser. Tudo dói, ninguém diz sobre o que por dentro fala, e dentro de mim tudo também grita, mas permanece apenas a realidade passiva e silenciosa que me consome. A ausência de vontades me faz perecer aos poucos imperceptivelmente diante de todos que ainda me assistem a rir uma gargalhada frígida que já não ecoa na efusão do vazio que controla tudo o que nem existe mais em mim. Sempre parece perda de tempo cuidar do que morto já está, e tudo sobra na inabalável reflexão que me corrói nesse sofrer contínuo. A mente ri da decisão errada que eu tomei ao ceder aos batimentos desenfreados do coração, e na disputa nenhum dos dois cede para me satisfazer e o meu corpo se distorce, pois o coração se distancia imensamente do que a mente diz, tudo se opõe e tudo se repele e agora eu sinto apenas o ardor de toda essa repulsão da qual eu perdi o controle quando virei para trás para tentar olhar pela última vez o teu corpo que de mim se afastava sem nada dizer, rumando por quaisquer caminhos que eu já não posso seguir.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Desconecto de mim.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Triscar e sucumbir.
Na estante ficava caído o teu retrato que mesmo tampado continuava claro e concreto na memória que não queria de mim fugir, fazendo qualquer olhar forjado sumir, era sempre o coração a se rebater em mim. É tão cedo para dizer que o tempo levou a poeira que o retrato deixou na prateleira, dessa afirmação eu sinto o meu corpo abdicar para de tudo não desistir. O passo disritmado não mente a dor enquanto eu piso uma passada contorcida e carregada de ardor. A agonia me apreende em tudo aquilo de que eu corro querendo incessantemente me afastar. Uma por uma as árvores passam, os galhos e as folhagens não impedem a chuva de cair em mim. Eu quero sair daqui, quero por quaisquer saídas conseguir fugir, escapar logo daqui. As buzinas não me alertam, os assobios não erguem a face, o braço só se levanta para fazer sinal para o ônibus parar. As escadas imundas não levam a lugar nenhum, do parapeito o meu corpo espreita se há alguma estreita passagem por onde o magro corpo possa se esvair dali. O céu nublado espanta a rua e esconde a luz que traria o calor que a minha alma já não sabe parir... É que já não há por onde tirar o que não existe mais dentro de mim. Na calçada desnivelada fica um poço d'água opaco, nele se esparramou a lágrima, um reflexo fosco do vazio que sou.
Ainda pulsas em mim.
Ainda gritas em mim.
Ainda dóis em mim.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Desesperança é o que resta.
Radiohead - All I Need.mp3
Os inquietos devaneios (sobre a solidão) II: O meu coração me trai contigo.
Como era cretino o fato de ser justo aquilo que me desesperava a cura mais óbvia para a dor. Não obstante, não seria a cura mais eficiente e sensata, mas eu sentia que o meu coração já implorava pelo fim do ardor. E por mais que em mim persistisse a certeza de que era essa a minha mais visceral vontade, eu sabia que esse intuitivo desejo, ao se concretizar, traria-me talvez de volta o sorriso, mas arruinaria a legitimidade de tudo o que se passava pela minha mente naquele momento, roubando-me a lucidez e deixando o tempo se arrastar muito menos violentamente, porém fazendo com que eu me esquecesse do que outrora me fez tanto sofrer, possibilitando a persistência da minha ingenuidade para que eu errasse novamente sem nada aprender. E apesar de ambas as decisões possuirem prós e contras, eu sabia que para o meu coração, que sempre me rouba a cena, não haveria hesitação na hora de escolher, pois mesmo antes do juízo final tudo em mim já pulsava tão lentamente que eu não saberia me precaver quando chegasse o momento de finalmente decidir entre escolher não sofrer ou me escolher.
Os inquietos devaneios (sobre a solidão) I: Tudo que eu toco me dói.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Reflex of reflection.
You don’t need to ask to know that I’m bleeding.
One part of me is already giving away
All hope words I'm not really used to say.
Looking at the mirror is even more bitter now
That I'm chasing the wrong hints in the rest of my life.
All of my stupid wishes came again only to fall apart
But I'm quite aware of being left in the darkest side of the eclipse
And my body is too tired to run with me to somewhere nice.
It feels like disappointing the fans on the last shot
And although this is the most repeated mistake I make
After all, inside my soul this isn't even near of what hurts the most
All the times I remember the causes of this past wasted chance
It always burns in me a terrible hate, leaving me down with no feith.
I can't take my own weights anymore
I won’t even try deceiving troubles like I did before.
I feel my past looking at my window and knocking at the door
Always laughing about the way I can't handle with my own disgrace
Did you really think I could ever take?
I can't even breathe with all these ashes blinding my face
I know my soul's not in the same step that I take.
There's not a light in the end of my road
I can't change the rules but I'm still not changing my mind
And now I can't even try to deal with my fool cry
I know only the light of your eyes make my heart shine in this dark.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Retrato.
E só o ligeiro olhar no relógio já consegue me tirar a paz.
No balanço do dia vazio fica o tempo e eu me lembro,
E sempre que isso eu não quero, o esforço é assim tremendo.
Eu fecho os olhos e só vejo que já ali vem o medo pra me devorar,
E no bolso eu não sinto a chave pra abrir a porta e me refugiar.
Quando eu me levanto eu vejo que o mundo não ficou pra me esperar
No meu peito fica estampado tudo o que pesa a me desacelerar.
O que já me ultrapassou me dilacera até a nudez parecer me adornar,
E a essa hora eu já não quero o tempo a me despir na minha frente
Já é tão tarde para eu me ver e descobrir que eu não sou valente
Já não vale a pena assistir ao meu passado a me derrotar.
Eu fico aqui sem saber onde é que é o meu fim.
Nesse jogo eu só quero uma chance pra eu poder roubar de mim
Pois no meio do caminho eu já não sei se eu corro,
Ou se paro à porta mesmo sem a chave pra poder entrar
Só pra arriscar e ver se logo atrás tu vens pra me deixar passar,
Pra eu assinar contigo um pacto e no teu passo te acompanhar.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Deixar de lado.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Autobalanceamento.
Um perdido olhar.
Ele ficava atordoado com a impressão de que todos os olhares hostis o encaravam de viés em avaliações críticas às quais ele era indiferente, mas ao levantar suas pálpebras pesadas, o porto ainda estava deserto, e a luz dos postes que refletia na água iluminava o ambiente que contrastava com o céu profundamente escuro; a cidade impedia a manifestação das estrelas, intimidadas pelas tantas propagandas, que também faziam a sua testa doer. E em primeiro plano roubava a sua atenção a sua própria velha bicicleta vermelha que ali ele largara para quando o corpo palpitante finalmente dali resolvesse fugir.quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Desengano co-rompido.
Dizem que o sol não se demora tanto para surgir pelo terraço
Mas a pupila que já não dilata me confunde dentro de mim.
Num segundo eu me perco em tudo o que eu faço
E nas ruas tudo fala, mas nada nunca diz.
Eu já não sei que esquinas eu devo dobrar
Até encontrar as palavras que poderiam explicar
Para mim mesma o motivo de me fazer assim tão mal
O aroma dessas coisas que eu já nem sei se são minhas.
De mim tudo foi e tudo ainda assim ficou,
Os traços no caderno são só rabiscos que eu não reconheço
A nostalgia quando vem me disseca até a alma
O tempo quando corre tanto dói que nem sei se mereço
Vem me ultrapassar sem pudor pra roubar a minha calma,
Pra deixar em mim uma memória que de mim nunca se solta
E me sobra só um resto de certeza de que o sorriso não volta
Até a hora em que eu reconstrua as cinzas de um alguém
Que um dia eu ainda cheguei a chamar de eu.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
E em mim me consumir (até sumir).
Eu já não sei dizer se eu não tinha defesa
Daquilo que um dia tapou a vil indiferença
Que agora sem querer eu já não sei abandonar,
Mas sobre isso eu nem precisaria pensar
Se não houvesse em mim um inconsciente martírio
Que se apodera de mim sempre que eu não sei perder
(de) tudo o que já cheguei a pensar que me faz vencer.
É, eu nunca fui mesmo de me importar,
Mas eu continuo assim no mesmo lugar,
Sem saber como poderei focar o olhar
Na perspectiva certa de me reencontrar
Em uma essência que eu já nem sei
Em que momento o vento passou pra levar,
Se é que algum dia eu já fui mesmo capaz de me achar.
Já não sei se é somente dentro de mim que ainda soa
O eco da repetição dos erros que eu já cansei de cometer,
Ou se o ostinato dos tropeços que me tiram a firmeza
Ainda continua mesmo possível de se escutar.
Mas já não importa qual das duas de fato aconteça,
Pois qualquer que seja só se ouve caso do aviso eu mereça
Mas agora o ruído está indubitavelmente a me atormentar
E eu só quero qualquer silêncio para poder me levantar.
Quando é que vem o outono para afagar a alma,
E para enfim o meu espírito poder se deleitar?
O meu corpo ainda cambaleia sem encontrar firmeza
Em quaisquer terras em que o pé eu possa fincar.
Se depois de tanto tempo eu já tenho a percepção
De que sempre se repete o momento de ir embora,
Procuro ainda qualquer vilarejo que seja a calma e não a fuga
de problemas que tornam esquecidos os problemas de outrora
E que, disfarçados, terminam sempre com o vazio na solução.
E sinto sempre então que estou aprisionado
Em um escarioso corpo fadado a me abrigar
E se os traços mudaram desde a infância
Aos meus defeitos sobra apenas a constância
E o mesmo gole de café que me mantém de pé
Impede-me de afastar-me num descanso para depois voltar
E olhar tudo o que eu errei ao deixar para trás,
Tudo o que agora insiste em me roubar a paz.
De que importa se eu conseguir impressionar?
Pois fora da verdade que sou já nada vale e tanto faz.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Agonia menor de idade.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
O porquê da calma fugir de mim.
A consciência repelindo timidamente a paz.
Uma repulsão a tudo que não já pertencesse a mim.
Não está nada bem dizer que estou quase bem.
Quanto tempo levará para eu livrar-me do orgulho e dizer-te,
Nesse timbre vergonhoso que contém a minha estúpida voz,
Que já se altera só com o tremular de uma reflexão sincera
E que jamais poderá confessar-te sem deixar de ser atroz,
Que nada disso eu farei teu também
Porque nada disso eu queria ser também.
Quando a minha lágrima também é tua.
E cá tu vinhas a correr desesperadamente para tirar-me a areia dos olhos inchados de pudor e mágoa, enfiando na íris teus dedos trêmulos que os faziam arder um tanto mais, enquanto ainda consumias o resto das tuas esperanças nas tentativas de arrancar-me à força o coração que ainda se prendia ao peito a pulsar freneticamente em um corpo fadigado que já não era capaz de recompor-se para estancar o próprio sangue perdido, e agora a ausência dele se fazia sentir em cada membro do meu corpo fraco, empalidecendo-o na proporção da própria dor, que se espalhava misturada ao sangue frio no chão escorregadio que outrora eu pisara com a segurança de uma inconseqüência ainda mais precisa do que a própria surdez a tudo o que tu ainda querias dizer-me.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
A efemeridade de uma vida inteira.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Lost decoy in despair.
I'm bleeding and I need to call an ambulance with no delay
But please make it come in silence so I won't lose my way.
I listen to the ring and put my right foot on the floor
I think about a prayer where I’d ask for a better day
I can't concentrate as I wait ‘til six o'clock to open the door
The world is swallowing me before I could get out of the hall.
The metronome'll never measure my fear of the consequence
Of giving the wrong answer to people who bumped into me
Walking in the streets looking for the right hint to follow
Without knowing of how lost I am and about the mess I did.
The metronome'll never measure my heartbeats frequency
When I turn the corner and I found a hurry body
Of someone I meet that now I need to greet.
They used to play me a trick and joke at my face
They laugh about the name I can't erase
But now that the childhood is gone
They’ll laugh at me about something I’ve really done.
And I'm always faithless in this endless game
For me there's nothing left but a bitter chance
To stay awake drifting with a silent complain
While I watch their vanity and feel a no reason shame.
Would you whisper in my ear everything I want to hear?
Even when you try to pretend you comprehend me
Your voice could never bring me any peace
When you come back and stab my loneliness it's just a dream
You would only steal what was making me breath
That my spirit seems to be using to fly away from me with
If you keep this way the wounds you made will never heal
Can't you just leave without the need for me to appeal?
Now I’m so sure you’ve never bled like I did.
I'm still where one day you said you'd leave
And somehow I only feel true to myself
When I admit that I'm lost since I saw you walking away.
I get fooled when I always run from one problem to another
And as usual hard times are faithfully beside me.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Overview at the fifth stop.
I’m the one that goes downstairs and tries to run away in time.
The tube's motionless but I still feel my own car passing me by.
Maybe inside me there’s a heartbeat that would show me why
I still feel a deep strength that moves me until I can realize
that the wind on my face is really getting the tears dry.
I want to drown me until I get in the basement floor
under everything I already built to be me, without knowing of.
I want to turn off all city lights that move beyond the glass door
While my sadness fills all the empty benches of the town
So that in darkness we could see the shining sky behind the clouds.
People look at my face just waiting to get my place
In the middle of the crowd I can’t listen to my own sigh.
The freight car that carries my life is always overturning
and messing up everything inside my heart.
Even though I don’t know why I need to be driving away,
I feel uncertain about being in the right rail.
And this is what my soul could never stand,
Hitting my own life and running with nowhere to hide.
I look out of the window and try to find the echo left on the streets
From the surviving dreams I’ve forgotten there while I ran asleep.
I’m shivering just to know if I’m taking the right bow,
I’m tangled up with the idea of being in backwards direction
I’m so tired I can’t trust my sense of perception
Do I really need to stay awake if every day
I get up only to watch the sky turning gray?
I’m hoping the breeze will whisper in my ear
which is the right way for me to follow, so I’m silent until I can hear.
A step behind where I should be.
I’ve been looking at bottomless dark views.
I’ve been running away in endless empty fields.
I’ve been just wasting legs and wheels.
I’ve been just watching the flying time
As the sun is setting by the horizon line,
There’s nothing left to find that isn’t already mine.
You say you can see right through my eyes
But you can’t heal the wounds you made deeply inside.
Take me alive, take me somewhere nice
Where at least I could feel my eyes still shine.