sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Para terminar de morrer o que não morri ontem.

Penso que agora eu só queria um sono sólido, maciço. O sono, precedido de um banho que me lave a alma dessa agonia que recobre a epiderme... de um banho que roube de mim essa ansiedade desenfreada que corre comigo a passos largos em caminhos iluminados por uma manhã que tarda a se elevar... de um banho que evite que essa apreensão permaneça em mim envolta, a me prender em mim, escancarando espelhos que cautelosamente deixo ocultos ao meu olhar descuidado. Revela-se a mim, então, a minha insignificância, e tudo o que prefiro não saber que não sou.
E em meio a esses reflexos, eu vou pedir aval ao primeiro espectro meu que me afastar sutilmente dessa minha incerteza, desse meu vazio, dessa minha imprecisão, que é pra ver se o meu rosto me mostra que esse meu corpo ainda pode carregar um alguém. Escondo-me no inexistente, porque não me bastam o real, o cru, o imperfeito inacabado. Neste silêncio, tudo o que vejo e ouço de mim e em mim insiste em clarear ainda mais a minha ineficiência, a minha impotência, a minha prolixidade, a minha ambigüidade.
Dói ter de escolher entre o pior e o “menos pior” só para atenuar a dor. Assim, crio uma dor que só arde e palpita tanto em mim porque não escolho somente por mim, e é essa consciência da minha hipocrisia que me abala termitantemente. O caos me percebe muito menos do que eu penso que perceba, e talvez seja só por isso que eu me preocupo em ter de me expor a ele para alcançar uma paz da qual mal distingo a forma, porquanto não possuo nem mesmo a certeza de que me verão verdadeiramente. Mas já noto que se nem eu sei me perceber de fato, não posso exigir muito mais de quem só me identifica pelo nome que carrego no bolso.
***
Prefiro deixar-me à deriva do tempo, mesmo que já nem mesmo nele eu deposite alguma esperança. Minha vida está em déficit com o que sou, e esse descompasso distorce-me, deteriora-me, expõe-me a mim mesma sem que me preparem para me deparar com tal discrepância.
Num espasmo que eu expilo essa verdade incômoda de dentro de mim. E, com um grito sem timbre, que parte da minha boca sem carregar a minha voz, livro-me dessa náusea, mas só por um instante infinitesimal, visto que as minhas palavras pontiagudas não esperam, vão e voltam num estalo, ecoam pelo vento e voltam a mim, ligeiras, transpassando-me, rasgando-me, murchando-me sem pudor, sem ponderar o estrago que instalam no meu âmago instável.

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