terça-feira, 18 de novembro de 2008

Agosto.

Leio nos lábios do tempo que ainda não alcanço a luz que o futuro destrincha sob esta neblina. Vejo que pairo, outra vez, neste lugar que não me agüenta mais, neste solo que já não suporta ser marcado pela minha pisada seca, quadrada. Passa por mim um vento árido, e eu quase tenho a esperança de que ele me leve sem a necessidade do meu esforço, mas logo a desilusão me consome, quando sinto a boca, o nariz, os olhos, todos ardendo em meio à ventania que me esfarela, que me expõe ao meu descuido.
Essa indecisão já é quase o meu retrato, é na inconstância do tempo que eu escondo a minha regularidade. E não, não peço misericórdia. Abomino-a. Quando vêm a mim com ela, é só com ela que a minha consciência reage, quando em breve eu vejo a volta fúnebre dos interlocutores ao receber como resposta à sua empatia, esse meu silêncio ríspido. Mas sempre já é tarde demais para remediar a grosseria.
Não sei até que ruas o meu desespero corre, e não sei quantas esquinas o meu olhar dobra, só pra ver se numa reviravolta me flagra fugindo de mim e pode rir, enfim. E rir só pra abafar o pranto, como de costume, e tornar a se apressar, pra se esconder de mim e de tudo, comigo, também... porque basta um instante, um relance, para fazer perceber que não há quem concilie a minha incerteza amarga com esse mundo ligeiro, raso, silenciado pelo próprio desdém.

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