sexta-feira, 30 de novembro de 2007

De quanto vale a incerteza?

Será que vale a pena dizer
Tudo o que se esconde em mim,
Sem ter pra quem desmentir
Se eu quiser depois voltar atrás.

Será que vale a pena chorar
Por tudo que já deu errado,
Mesmo sabendo que a lágrima
Eu nunca consigo evitar.
Mas e se eu pudesse, será?

Será que vale a pena sair,
Fugir de mim só pra te acompanhar,
Abandonar a calma pra te olhar,
Mesmo sabendo que depois,
Eu posso querer voltar atrás,
E já vai ser tarde demais,
Pro meu coração voltar pra mim?

Será que vale a pena deixar
De arriscar tudo o que já é meu,
Com medo de de mim eu me desencontrar
E viver sem nem desconfiar
Que eu não sei o que é viver de verdade.

Quando o viver do nada não se distingüir
Quando a vida for linear
Quando a solidão não se diferir,
Quando do coração eu não mais me lembrar,
Eu não vou nem precisar pensar,
Eu não vou saber, não vou lembrar
O que vale a pena dizer,
Pra depois não sofrer.

Mas eu sei, eu sei,
Do tanto que eu caminhei,
Pra chegar e poder dizer,
Que é uma pena não viver,
Só com medo da dor,
Não vale a pena, não vale.

sábado, 24 de novembro de 2007

Alvo fácil.

Eu vou reparar os resquícios dos meus sonhos,
Com a lágrima que eu nunca te vi derramar.
O meu medo e as suas palavras bem postas,
Eu já não sei como iriam soar.

Soa como o vento me arranhando a garganta,
Como a tristeza despejada na face,
Como o núcleo pontiagudo da dor.
Dói como a luz afiada cegando o olhar,
Como a porta que bate bruta sem pudor
Como se de novo o amor viesse me encontrar.

Quanto mais longe estou eu,
Mais perto está você de mim.
Quanto mais longe está você,
Mais perto estou eu de mim.

Tira o meu coração de mim,
Seca a lágrima e vá.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Cem por cento não-ficção.

Não sei o que anda havendo comigo. Não gosto de textos como esse, aliás, abomino-os, mas já não reconheço a melancolia do que escrevo normalmente, apesar da constante ausência do sorriso. Minhas palavras já não são sinceras por completo, meu cotidiano é tão vazio que um leitor definharia se eu fosse inteiramente sincera ao narrá-lo, ou ao tentar descrever minhas emoções. O vazio me incomoda, e eu já perdi o ânimo até mesmo para fazer o que é necessário que eu faça. Ao contrário de como eu costumava ser, agora eu já não me incomodo ao estar consciente das semanas de estudo atrasado, dos livros abertos cujas páginas estão amassadas, dos cds que deixei fora da caixa arranhando na mesa. Nada me incomoda, eu já não consigo prever algo diferente do que todo esse vazio. Passa, eu sei. Assim que houver motivo, seja dor ou alegria, para que eu me espante, esse vazio passará sem eu nem perceber, nem que seja para que o pranto tome conta do meu rosto pálido. Porém, o tempo acumula e imutável é o vazio. Com a falta do que sacie minhas vontades, voltei a escrever sempre, voltei a observar o comportamento de quem se senta à minha frente no ônibus, voltei a ouvir e procurar músicas que há tempos não ouvia ou que nunca ouvi. Desconto minha infelicidade em quem está ao meu lado, e não queria que fosse assim. No fundo eu sei que não há quem mereça minha impaciência, mas nem eu mesma me agüento. Queria ter algo para poder desabafar ao vazio, mas não tenho, exceto o próprio vazio. É apenas o meu vazio que vaga por entre as linhas azuis do caderno barato, em meio a funções, prismas, teoremas e conceitos. Sem querer emprestei meu caderno um dia desses e leram o que escrevi. Devo ter mais cuidado com esses desabafos ao vazio, não é de meu intuito que todos saibam dessa minha lassidão. Aliás, no meio das linhas azuis citaram na aula Maquiavel, que diz que não cabe ao Príncipe possuir todos os atributos, porém aparentar possui-los. Sou como o Príncipe, e não quero que saibam da minha indolência. Não quero. Quero guardá-la para mim até que ela se esvaia sem eu perceber, mesmo que isso seja apenas ilusão. Mas é apenas a ilusão que me mantém sã, ou creio que enlouqueceria em meio a todo esse... vazio. Eu me perco no vazio, porém, se eu fosse algo, seria fácil me encontrar novamente, afinal de contas não há muito o que se confundir no vazio, se eu constituísse alguma porção de matéria eu logo me acharia. A única explicação, portanto, é que eu seja uma parte desse vazio, eu componho o vazio e sou culpada por ele. Eu sou um imenso vazio. Ou um minúsculo vazio. Vazio não se mede. Eu nunca soube me medir. Às vezes finjo que me engano ao pensar que os transeuntes que circulam pelo mesmo asfalto que eu são pessoas vãs, que não sentem tanto quanto eu. Elas, talvez, sintam um vazio tão nulo quanto o meu, e eu nem sei. Talvez eu não saiba porque simplesmente a humanidade tem essa mania que bem citou Maquiavel. Essa mania de querer aparentar o que não somos e esconder o que somos. Não obstante, eu desisti de me esconder de mim. Cinco mil novecentos e seis dias, mais os vinte e nove de fevereiro que não contei. Tanto tempo me impede, mesmo que eu queira, de esconder o vazio. No fim, foram todos dias vazios, parte de uma jornada que me engana, pois o vazio não acaba, não cresce, não diminui, continua ali, estático, sem potencial para se expandir ou desaparecer de vez. Confundo o nada com o tudo, confundo o vazio comigo, confundo-me no meu vazio. Tudo me incomoda, e eu já não sei do que eu preciso para ir embora daqui, para ir embora de mim.

Today has been a fucked up day,

looks like tomorrow'll be the same old day.

domingo, 18 de novembro de 2007

Quanto tempo leva?

É capciosa a saudade. A saudade, e a sua capacidade de distorcer o passado, de engrandecer sentimentos, de menosprezar o que estamos a viver agora. Desvalorizamos o presente e, sempre insatisfeitos, lembramo-nos de tempos passados e sentimos saudade, quando muitas vezes o que já se passou nem dê razão para tanta saudade. Saudosos de gente, tempo e lugar, vivemos. A saudade deforma, traz o sentimentalismo à tona, engrandece amores e ameniza mágoas. Quem me dera eu falasse da saudade como a maioria faz, feito sentimento vil. Não é à toa que apenas o português e talvez outros poucos dialetos possuam a palavra saudade. Não pela incapacidade de descrevê-la, mas pela sua sutileza, sempre imersa em meio a outros sentimentos mais descritíveis.

Eu, porém, sei que sinto saudade, e sei que ela distorce o que sinto. Às vezes não sei se o que sinto é afeto, amor, ou saudade. Se são os três juntos ou nenhum dos três. Se são os três juntos, ainda assim seriam distintos do que sinto se não fosse a saudade em meio a eles, para engrandecê-los e fazê-los tomar parte maior do meu pensamento. Talvez eu não desse tanta atenção a quem já disse adeus se não fosse a saudade. Não é sempre que eu sinto saudade. Sinto falta, mas não sinto saudade. A saudade nunca vem sozinha, sempre vem acompanhada de algo maior, que ao lado dela aparenta ser ainda maior do que já é. Não obstante, a falta pode vir sozinha às vezes – e quantas vezes eu já senti falta do guarda-chuva em meio à tempestade. Sinto falta de palavras, sinto falta de saber, sinto falta de sentir. Quando desligo o telefone, sinto saudade. Sinto saudade de palavras, sinto saudade de saber, sinto saudade de sentir. Seria mais fácil me livrar do que quero esquecer se não fosse a saudade. Tenho mania de sempre culpar o amor, mas acho que dessa vez uma parcela da culpa pode ser atribuída à saudade. Se o tempo faz passar o amor, o tempo às vezes aumenta a saudade, e quanta agonia me dá. Quando vem a saudade, sempre vem junto, incansável, o sentimento maior que a acompanha.

Preciso, portanto, sempre estar ligado à realidade, ao presente, preciso sempre me prender ao que tenho agora para não estar sempre saudoso de quem já se foi. Concentrar-me no presente e entreter-me com meus pertences temporários. Não posso prender-me em demasiado, porém. Afinal de contas, pode ser que algum dia eu venha a perder o que tenho agora, e então eu sinta saudade. Preciso sempre balancear a força com a qual eu seguro o que tenho, o que talvez exija de mim uma força descomunal apenas para equilibrar durante muito tempo uma força não tão imensa quanto aparenta. A saudade engana. Se a força for pouca, pode não ser suficiente para afastar a saudade. Se for muita, pode ser que mais tarde eu leve tempo para esquecer do que antes segurava com tanto fervor e assim, não sentir saudade. Oh, maldita saudade. Que saudade dos tempos em que eu não sentia saudade.

sábado, 17 de novembro de 2007

Miragem.

A miopia disfarçava o descuido. E agora o tempo de olhar disforme foi-se embora. Enquadradas através do aro preto grosso, são perceptíveis as rugas, as olheiras, os fios brancos, o olhar perdido, o cabelo embaraçado e sem corte que eu disfarçava ao aparar mês a mês. A barba eu fazia regularmente, o rosto roçando no colchão me incomodava e atenuava ainda mais a insônia, o que me obrigava a raspá-la quando já beirasse o insuportável. O pescoço já não se mantinha em pé na vertical, pendia para o lado esquerdo como em um torcicolo intenso após uma noite mal dormida. Dias mal vividos, porém, tornaram-no permanentemente torto. Talvez seja esse o motivo do olhar desconfiado do cobrador do ônibus, talvez seja esse o motivo dos murmúrios das vendedoras da loja de sapatos após minha saída, talvez seja esse o motivo da estranheza que causo em cada padaria que adentro com o singelo intuito de manter-me vivo. Agora vejo com exatidão a minha feiúra e vejo que meu âmago se encaixa bem nela, e talvez tenha sido melhor não saber da minha aparência lamentável para não me deprimir enquanto era jovem e não havia razão para tanto, não havia razão para desistência de si.

O astigmatismo me enganou. Cínico, fez-me pensar que não seria tão penoso o caminho de asfalto quente, que me aparentava ser liso e plano, com suaves curvas e subidas que para mim seriam naturais. Mas foi esburacado, bifurcado, e repleto de desníveis que eu encontrei-o quando ao percorrê-lo percebi que a pele do pé feria e ardia. Caí diversas vezes e pude apalpar o cimento e senti-lo tão áspero quanto meu rosto sem barbear. Quando olho agora para trás, porém, vejo que talvez se a minha visão estivesse cem por cento, talvez eu desistisse antes de chegar até onde cheguei. Talvez o astigmatismo tenha me sido válido, talvez tenha me escondido de um caminho que me esperava desde que eu aceitei viver. A memória falha, porém, não me faz lembrar se viver foi uma escolha ou uma imposição da própria existência, mas agora já não me cabe isso indagar, pois estar aqui é apenas um fato, e me soaria fraqueza desistir sem saber do caminho que haveria por vir.

A hipermetropia, por fim, escondeu-me. Eu não lhe vi. Não vi suas mãos acenando a dois palmos da minha face, pensei ser apenas mais uma nuvem de tantos insucessos e erros da trilha que percorri sem perceber. Não lhe vi. E o tempo fez com que você desistisse de tentar juntar nossas estradas esburacadas para compartilharmos do mesmo cimento para tapar os defeitos. O tempo se fora, e a ventania não me dá trégua. O vidro do óculos, porém, protege minha íris dos resquícios arenosos da terra que sobem à altura da face, e agora é doloroso perceber o quão distintos estão os nossos caminhos. Talvez já seja tarde demais para culpar minha visão defeituosa pelos erros que com o tempo são apenas meus, e não de meus olhos. O asfalto quente, porém, impede-me parar no meio do caminho para contemplar meus erros passados, logo sinto a realidade me chamando de volta para seguir o trajeto, e olhar pra trás faz doer ainda mais o meu pescoço torto.

Eu, oftalmologista de quem? Se o diploma de medicina estampa o meu escritório, já não vale nada a mim. Eu já não confio em mim, e quem garante que apenas a visão que é falha? Minha idade não me convence, minha experiência é descartável. O tempo não me trouxe nem me tirou a lucidez. O vento que costumava me impulsionar para completar as descidas, agora parece obrigar-me a exercer mais força com o corpo para vencer as subidas, como se eu fosse um peixe afastado do cardume nadando contra a maré. O vento? O vento é o tempo. A favor, contra, ou indiferente ao meu caminho, a brisa do tempo trouxe-me ao acaso lentes que me fazem enxergar melhor, mas que não aliviam a luz solar intensa na íris e na pele. Se me afastei da vida pensando me afastar do clichê, errei. Se quis projetar uma vida equilibrada ao longo do tempo, e sem querer apenas a joguei para um futuro inexistente, errei. Se não vi que deveria calçar sapato melhor, se não vi que dormir de lado faz mal, se não fui capaz de distinguir sua voz, se não vi que deveria receitar óculos a mim e não ao paciente, agora vejo que de tanto consolar o velho com catarata antes da cirurgia, para mim não sobrou consolo para a vida que eu não vi passar... AH! Chega, o asfalto queima e eu preciso prosseguir.

Derrama o drama aqui.

Os dentes já todos apodrecidos e alguns ausentes atrapalhavam-no a soprar a gaita empoeirada. Os lábios que acabavam por sugar a sujeira para dentro de si estavam secos e rachados, ele já não colocava uma toalha úmida na janela, como de praxe, para aliviar a baixa umidade da cidade do centro-oeste. Ele não se importava, o sol poente atravessava-lhe a íris e os olhos inconscientemente se comprimiam, o sofá mostarda perdia a cor, desgastado pelo sol de todo dia. Ele já não pensava mais em comprar uma cortina ou uma persiana, as paredes já sem pintura e os quadros tortos pendurados sem zelo não o incomodavam mais. Abandonado naquele apartamento para dois, ele trancou o quarto que agora sobrava e jogou sua chave pela fresta que havia embaixo da porta, assim nunca se atreveria a abrir novamente o cômodo para divagar em memórias e lembranças de um passado que desmoronava em suas costas esqueléticas de maneira hostil. A garrafa de vodca sem querer tombara na toalha que ele usara no banho, ele inalava o cheiro da bebida e lastimava a si mesmo a falta de outra garrafa para consolá-lo novamente.
Sentia o coração explodindo dentro do corpo pálido, fez um esforço para levantar-se do sofá, aliviou-se quando já não estava sob os raios do sol. Abotoou a calça, colocou a camisa surrada e desceu para o térreo. O porteiro do prédio já não chamava a atenção do inquilino por não pagar as taxas mensais, era em vão; o parasita endividado nem mesmo o olhava para inventar desculpas de improviso ou desconversar. Foi para o bar novamente, ainda vazio àquela hora, encontrou apenas um funcionário conhecido a limpar o balcão com uma flanela vermelha, a lâmpada amarela falhando a todo momento e ameaçando apagar-se de vez, mesmo assim ele não subiu o olhar para reparar. Sentou-se numa mesa, e o jovem logo largou a flanela e entregou-lhe o copo com o conhaque que ele sempre pedira. Mas o alcoólatra fez com a mão um sinal negativo, e murmurou que queria um café. Um café. Ele nunca tomara café na vida, a não ser na juventude quando confundira com refrigerante negro, e odiara a experiência. Porém, naquele momento, apesar do vício, ele já desistira de se atormentar e fazer-se um estorvo para quem quer que o levasse de volta para o apartamento no fim da noite. Ele, todo dia, acordava jogado no sofá mostarda e por ali desperdiçava o seu dia, recebendo telefonemas que não atendia e ouvindo as batidas na porta do síndico do condomínio. Pedira o café, que não tardara a chegar. Olhou para a solução e abriu o minúsculo pacote de açúcar. Não fazia a mínima idéia de quanto deveria despejar no líquido, colocou apenas metade do pacote, girou a colher e experimentou, sem pestanejar. A xícara não encostou no lábio por mais de um segundo, quando ele sentiu a boca queimando com o café que parecia ferver. Disfarçou e soprou levemente a xícara, tornou a tentar beber o café. Um gole, enfim. Estranhou aquele gosto amargo e macio que descia pelo seu corpo queimando o esôfago, causando-lhe uma leve contorção que não era perceptível a quem não prestasse atenção nele. Com o tempo que passara naquela mesa, pouco a pouco aproximaram-se rostos familiares que sentavam-se nas mesas, apoiavam-se no balcão e puxavam assunto com quem estivesse por perto. Ele olhava para baixo, evitando qualquer um, seu aspecto rabugento afastava qualquer simpático. O silêncio pouco a pouco fora quebrado pelo grupo que ali se formava, de repente um rebuliço estava feito por trabalhadores fervorosos e exaustos após um dia quente e abafado na metrópole. Houve um momento, então, em que uma jovem parou pouco depois da porta. Era a única mulher por ali, em meio aos bêbados que àquela hora já se queixavam de suas rotinas, de suas esposas, de seus times de futebol. Ele passou rapidamente o olhar por ela, e notou que a moça olhava-o sem compreender. Ele desviou a vista para a parede escura, tentando disfarçar a mulher que ele não conhecia. Apenas avistando o corpo, ele sentia a apreensão da moça que parecia não acreditar no que via, e se concentrava nele. Justo nele, e ele também não compreendia. Mesmo sem olhá-la, ele viu pelo canto do olho que ela, percebendo que ele não lhe dirigiria a palavra, aproximava-se da mesa na qual ele estava, solitário. Ele fingiu não perceber, continuou fixando o olhar na parede por trás do balcão.
- Não sei o que isso significa, mas você não vai falar comigo? – ele subiu o olhar e percebeu o rosto de bonitas feições e a camiseta desajeitada no corpo esguio da mulher que o indagava, e hesitou ao respondê-la:
- Acho que não a conheço...
- É, suspeitei que não lembraria. – ela parou por um instante, provavelmente pensando em como iria se explicar – Bem, eu lhe conheço. O que está fazendo aqui?
- O de sempre, acho. Conhece-me de onde?
- Daqui. Percebo que nunca se perguntou como chega em casa todo dia. Portaria dois, quarta porta à esquerda, apartamento oitenta e sete, sofá do último quarto. Ah sim, a fechadura tem problema, é preciso forçar um pouquinho pra abrir. É. Eu que te deixo lá todo dia, mas nunca presenciei a ressaca.
- É. Bem, acho que não sei o que te responder. Por que me leva todo dia, se nem me conhece?
- O que me intriga é que a essas horas você já deveria estar se entregando, ao relento da bebida. Todo dia lhe encontro jogado na mesa, os outros a comentarem sobre você; e agora aqui está você acordado e consciente.
- Por que me leva?
- Espera, por que tá tomando café?
- Não sei, cansei disso tudo. A fadiga superou o vício e a indolência, enfim. (...) Você, além de me fazer falar, tá conseguindo me enrolar. Diz, por que me leva todo dia?
- Não há motivo, mas não é compaixão ou nada que se admire. Você não é como os outros. Não chora, não grita. Nada. Você abaixa a cabeça quando sente que não pode mais com a bebida, com o tempo, com tudo. Você apenas se entrega.
- É. E faz tempo que não falo tanto. Leva-me para casa?
- Não. Acho que já é chegada a hora de você aprender o caminho de volta, de esquecer dos arrependimentos do passado, largar a fadiga e em vez de apenas se entregar ao desconhecido - fingindo coragem e força - mergulhar nele e ainda voltar para a luz do dia com a mesma vontade que nele você adentrou.
A cabeça sóbria agora dera uma reviravolta maior do que em qualquer ressaca. Ele não respondeu. Pegou a mão da moça e rumou para o apartamento vazio.

sábado, 3 de novembro de 2007

No foco do sufoco.

Sentiras-te preso aos amarres do destino imutável. Imutável? Não, apenas futuro. Desconhecido. Obscuro. O destino não é autodeterminante, faz-se a partir de tuas próprias escolhas. E quando tu paras para pensar nas escolhas equivocadas que fizestes há cinco minutos, já então tu estás novamente a mudar o teu destino, desperdiçando teu tempo com indagações vis. Certas vezes tu perdes o ânimo a sentires-te mais fraco que o destino obscuro, sentes-te impotente e insignificante, sentes que todo o teu esforço é-te desnecessário no final, pois o fim não é de teu agrado. Como se tu houvesses separado o lixo orgânico do lixo seco com o maior de todos os zelos, para no último estágio do tratamento de lixo vir-te algum leviano a misturar as sacolas negras repletas de detritos.
Vem adentrar-te pelos tímpanos e invadir-te a alma a essência cortante da descrença e da decepção, que te faz tremer com o calor que te arde a pele e que te tira a vontade de lutar contra as correntes do destino que, não obstante, és tu quem determinas a todo instante, sem sabê-lo. Tu vives a todo vapor, e talvez sejas mais feliz do que pensas ser naqueles dias em que nada estás a fazer, mergulhado em pensares sobre teu âmago e sobre teu passado, deitado observando as rachaduras do teto branco, em uma indolência que te causa um sofrer que parece rasgar-te o corpo para fugir de ti. E tu pensas que não te encaixas nesse mundo caótico, pensas que és diferente, que és algo que não humano. Não pensas ser superior ou inferior, pensas apenas que te formas com uma medida distinta do restante da sociedade; como quilograma e litro, decímetro e segundo; incomparáveis somente. Aliás, tu pensas ser adimensional, tu não consegues medir-te, tu te sentes um nada naquele instante, mas recebes um sim, ouves uma canção, e num repente tu te sentes tão incrivelmente maior que o planeta que pisas. Mas, ainda, não sabes o que quer. Não sabes o que és, não sabes nada. Nada. E é nada o que o destino te diz. O destino que tu constróis sem saber, sem perceber, que tu constróis até mesmo nas tardes chuvosas em que permaneces sentado sem dar atenção à televisão, pensando no próprio destino, visto que aquele momento seja responsável por aquele vácuo no destino que já não é destino, e sim passado, aquele vazio que tanto te apreende e que tu não és capaz de alterar. E como te dói a sensação de nada poderes fazer a respeito do que ainda há de vir. E não sabes, porém, que a sensação de impotência é comum a todos os que compartilham contigo vidas e destinos tão distintos e semelhantes simultaneamente no mesmo planeta azul.
Tu xingas o teu parceiro de hipócrita, idiota, estúpido; e ele também te xinga, e o que tu hás de fazer? Nada, pois tu sabes que és muito mais do que a hipocrisia que te fora relatada. E ele? Ele também o sabe, por isso todo o xingamento se faz vão. Cada um, entocado em suas próprias crenças de si e do mundo, não dá atenção ao que vem dizer o companheiro. Tu não dás atenção ao xingamento, assim como não dás atenção às sutis anunciações do teu próprio destino, pensas ser distinto e conspícuo, capaz de guiar as rédeas do destino sem que seja preciso seguir os clichês dos guias de etiqueta, de formalidade, de educação, de viver. Tu vives levando, levando, levando, apenas aguardando um final que sempre te soa distante. Tu desistes do final feliz, tu te conformas com a realidade, tu perdes aquele encanto que tinha pelo amor quando tu eras jovens, tu te entregas à solidão. Nesse constante levar do viver, há aquele fim de semana em que o vazio do teu viver te apreende, tu choras a madrugada inteira e despejas o resto da tua tristeza em uma melancolia perceptível no resto da semana ou do mês, mas com o tempo tu recuperas o teu sorriso e tu te lembras de que, ainda assim, o globo continua funcionando a todo vapor, sem que haja trégua para repor as baterias ou sentar no meio-fio. Tu então segues teu caminho de terra alternativo e vives desviando de buracos mal tapados e superando desníveis do relevo do país que tu escolheras para caminhar. Vives em arrependimentos esporádicos, mas vives em paz contigo mesmo por saberes que não te renderas ao que dizia o livro de etiqueta. Tu continuas a usar o sapato baixo e não abandonas o teu sotaque, tu continuas a utilizar o trema antiquado e já não te importas em viver sozinho, já que vives em paz contigo mesmo; pois no fundo tu sabes que o final te valerá a pena, pois será o final real, será o final de tudo, e não o final de apenas mais um leitor do best-seller de auto-ajuda.