Ela entrou na sala de teto circular para escapar da forte ventania que precederia a futura tempestade. Fechou o portão delicadamente para que não atraísse ninguém. De fato, aos domingos não havia ninguém por ali, até surpreendeu-se ao encontrar o portão destrancado, o cadeado caído no chão. As luzes todas apagadas, a solidão se propagava rapidamente pelo ambiente; ela apalpou a parede fria e lisa e logo sentiu os interruptores. Acendeu apenas algumas poucas luzes, para conseguir orientar-se sem tropeçar. Percebeu, então, a imensa máquina preta no centro da sala, as cadeiras azul-marinho enfileiradas, a mesa de som no outro extremo. Manteve o ambiente naquela relativa escuridão, assim não seria necessário forçar os olhos e franzir a testa para evitar a luz. A paz do ambiente contrastava com o caos do seu âmago, que por tanto tempo já não sabia o que era a ausência da lassidão. Ela já não chorava com coisa pouca, não percebia a dor, era quase inexistente o que conseguia atingir e agredir o seu coração naquele estágio de solidão. O pessimismo e a baixa auto-estima alimentados ao longo dos inesgotáveis anos proporcionavam essa desistência de tudo, a indolência constante. Ela já não esperava alguma melhora, na falta de algo que lhe fizesse ter vontade de viver.
Na sala escura, ela escolheu uma poltrona perto de uma lâmpada queimada, e para lá se dirigiu lentamente. Os passos revezavam-se no carpete macio, o corpo magro e fino e as feições mórbidas continuam imóveis, apenas as pernas a transportarem-na. O peso da máquina fotográfica fazia o corpo e os ombros penderem para a esquerda, a faixa preta reforçava no suéter preto os ossos da clavícula e os seios, o corpo esquelético de muito tempo; ela já não se importava. Sentou-se, as pálpebras se juntaram inconscientemente em algum instante oportuno, ela expirou todo o ar que parecia impregnado nos pulmões a muito tempo, incomodando-a, a respiração profunda a fez sentir a coluna e as costas doloridas de esforço físico algum. Os fones de ouvido propiciavam a melodia melancólica em sintonia com o momento, o pensamento mais uma vez a afastou do vazio de mais aquele domingo, e ela se deixou levar pelos devaneios, como há tempos não fazia. As lembranças mais doloridas vieram à tona, ela fingiu não se importar, quase lhes dava alguma atenção, quando a melodia da música nos ouvidos se intensificava, desconcentrando-a e fazendo esvair as memórias inoportunas. Quem ia saber, se viria mesmo algo para salvá-la de si...
Qual era a razão do vácuo de sua essência? Não era apenas uma razão, um motivo, um erro. Era a junção da personalidade, dos interesses, da indiferença, e de erros e ilusões sucessivos que fizeram-na desviar-se demais do rumo existencial aceitável para alguém, numa solidão contínua e de caráter duradouro. Ela abandonara toda a sua vida em prol de ter algo que, no futuro, também veio a perder. Trocar prioridades é um erro tolo que ela cometeu tantas vezes quando já não era jovem e supostamente inexperiente. Mas ela não podia mesmo saber que ser e agir desse modo lhe traria tantos incontáveis dias vazios assim. Todo aquele cotidiano nulo fazia esvaecer cada vez mais sua consciência, ela já não estava sã. Nunca chegou a entender o porquê de haver abandonado o que lhe acompanhara há tanto tempo daquela maneira, para ter algo que lhe surgira repentinamente, assim. Nem do seu amor ela já conseguia lembrar e entender ao certo. Agora, já recuperado o suposto pensamento racional, via de fora o que fizera no passado e se arrependia, sem se entender. O arrependimento e a incompreensão de si mesma a fez desistir pouco a pouco do viver, então, pois não lhe surgiu motivo para tentar recomeçar por outro caminho. Julgou-se indigna de querer essa tentativa, e as decepções acumuladas tiraram-lhe até a última gota de ânimo, e escureceram o coração que, não obstante, insistia em bater. Não se depreciou a ponto de querer impedir as batidas do coração, somente se fez indiferente a elas, já havia desistido de trazer um sorriso de verdade ao rosto pálido, que não fosse apenas um sorriso de agradecimento ao rapaz do caixa da padaria, ou um sorriso para evitar perguntas desagradáveis no jantar em família.
De repente a música nos seus ouvidos parou, mas ela não abriu os olhos, continuou estática. Veio repentinamente uma brisa atravessando-lhe o suéter; o corpo inteiro arrepiou, ela levantou-se num espasmo, sentiu um repentino e inexplicável feixe de esperança, as lembranças deixaram-na em paz, agora só indagava-se a razão da ventania súbita no seu corpo. Abriu os olhos, agora as luzes todas acesas, inclusive a que antes estava queimada, e o portão continuava fechado como deixara antes, o cadeado no carpete despenteado, a parede ainda com a pintura gasta, mas as luzes acesas sem porquê. Não havia mais ninguém dentro da sala, ela tinha certeza. De repente ouviu o barulho dos automóveis na avenida ao lado, o rebuliço das pessoas que tagarelavam na praça, os trovões da tempestade que ela nem vira começar. Sentiu o tremor do solo quando o metrô passou exatamente embaixo da cadeira que escolhera. Sentiu o mundo. Sentiu-o funcionando, e sentiu seu corpo estático em descompasso. A música nos ouvidos recomeçou, mas ela abaixou o volume para continuar ouvindo os ruídos externos. Caminhou até o portão novamente, e durante a caminhada esqueceu-se dos arrependimentos, das decepções, dos pactos que fizera consigo, e pressionou a maçaneta. A ventania e a chuva não tardaram a atingi-la, e ela de repente aliviou-se. As pálpebras agora abertas por completo, para enxergar as luzes difusas dos postes, dos carros que passavam na rua, por trás de tanta água que a separava de tudo. Enquanto isso, apareceu o vulto de alguém recolhendo o cadeado que estava pouco atrás de si, gritando-lhe algo com um tom de repreensão. Agarrou o seu braço fino quando ela fez menção de sair, mas mesmo sem dar muita atenção àquele semblante que ela mal vira, ela desvencilhou-se e correu para longe dali, sem lembrar-se da roupa que já começava a se encharcar; a tempestade parecia lavar-lhe o âmago, parecia tirar-lhe as incertezas e impulsioná-la a atirar-se no desconhecido, agora ela já parecia dona de uma disposição que tomara conta de si subitamente quando há alguns minutos uma brisa a atingira sem porquê e lhe dara alguma esperança que ela não se importava se seria vil ou não. Caminhou na avenida vazia, o dia escurecia por trás das nuvens cinzentas, todos abrigados em suas casas, o barulho sutil dos limpadores de pára-brisas era abafado pelos motores e pelo rebuliço de quem se protegia embaixo de qualquer marquise. Porteiros, comerciantes, empresários, donas de casa, todos entretidos em discussões sobre as mudanças de clima repentinas no país subtropical. O calor que era quase sempre ausente agora afastava a chuva de granizo e a neve da paisagem parecia derreter. Ela continuava andando rápido, alguns lhe ofereciam um espaço na portaria do prédio, ela agradecia com a mão e seguia.
Na ponte interditada, o cimento esvaia-se com a força da água que o arrastava e obrigaria o trabalho a ser refeito. De ônibus, a ponte não parecia tão extensa, bem como o rio. Com dois minutos ou três, ela ultrapassou o que todos os dias ela costumava atravessar em poucos segundos. Sentou-se no cimento molhado do porto e deitou suas costas no chão frio, as pernas ficaram livres alguns metros acima da água que se rebatia nas pedras do porto e quase a atingiam sem que ela sentisse. E passados alguns minutos, ela sentiu-se bem como nunca se sentira antes. Sabia que fizera o que poderia ter sido feito, e finalmente o peso da consciência parecia ter a deixado em paz. Não havia mais o que se fazer, falar, dizer. Não havia mais nada para caminhar, apenas o acaso lhe diria o que lhe serviria de energia para fazer novamente o motor roncar e disfarçar o limpador de pára-brisas cujo ranger lhe incomodava tanto. O metrô passou por trás de sua cabeça, ela sentiu apenas o chão tremendo de novo, sinalizando a hora de sua partida para uma vida sem melancolias sem razão, que ela poderia traçar sem haver a constante necessidade de um braço ao lado para levantá-la para recolocar o cimento que a tempestade levara embora.