quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Descompasso do eu errante.

Sinto-me vazio de mim. Já não sei se possuo alguma essência para me diferir de qualquer outro, além das feições e das impressões digitais, além da cicatriz no peito, do dedo com defeito.
Sinto que não caibo em mim. Já não sei se meu corpo inchado agüenta a alma errante que se esvai pela lágrima quando já é insuportável ao corpo me manter inteiro por aqui.
Sinto que não existo em mim. Já não sei se o corpo que divaga pelas ruas e dobra esquinas com o meu olhar é mesmo meu, pois não percebo ninguém que me cumprimente e me identifique pelo o que sou e não pelo corpo que carrego.
Sinto que não confio em mim. Já não sei se me foram aproveitáveis os anos, momentos e segundos que vivi, pois há tempos me parece que meus erros são ainda os mesmos de muito tempo atrás, e todo o tempo é pouco para me ensinar a não tropeçar de novo, da mesma maneira, no mesmo degrau.
Sinto que não me sinto em mim. Já não sei se esse desespero é meu, ou se é só uma reação do meu corpo tentando me expelir de mim; se esse amor é mesmo meu ou se é só o meu coração acelerando pra me dar sinal para viver de verdade; se o sorriso é mesmo a minha alegria ou se é só o meu corpo indolente querendo disfarçar a dor pra não precisar mais ouvir sermão nenhum.
Sinto que todo esse pranto que escorre pelo corpo não me leva embora de mim. Quem me dera eu pudesse fugir de mim junto com a lágrima...

sábado, 27 de outubro de 2007

Planetário 73.

Ela entrou na sala de teto circular para escapar da forte ventania que precederia a futura tempestade. Fechou o portão delicadamente para que não atraísse ninguém. De fato, aos domingos não havia ninguém por ali, até surpreendeu-se ao encontrar o portão destrancado, o cadeado caído no chão. As luzes todas apagadas, a solidão se propagava rapidamente pelo ambiente; ela apalpou a parede fria e lisa e logo sentiu os interruptores. Acendeu apenas algumas poucas luzes, para conseguir orientar-se sem tropeçar. Percebeu, então, a imensa máquina preta no centro da sala, as cadeiras azul-marinho enfileiradas, a mesa de som no outro extremo. Manteve o ambiente naquela relativa escuridão, assim não seria necessário forçar os olhos e franzir a testa para evitar a luz. A paz do ambiente contrastava com o caos do seu âmago, que por tanto tempo já não sabia o que era a ausência da lassidão. Ela já não chorava com coisa pouca, não percebia a dor, era quase inexistente o que conseguia atingir e agredir o seu coração naquele estágio de solidão. O pessimismo e a baixa auto-estima alimentados ao longo dos inesgotáveis anos proporcionavam essa desistência de tudo, a indolência constante. Ela já não esperava alguma melhora, na falta de algo que lhe fizesse ter vontade de viver.

Na sala escura, ela escolheu uma poltrona perto de uma lâmpada queimada, e para lá se dirigiu lentamente. Os passos revezavam-se no carpete macio, o corpo magro e fino e as feições mórbidas continuam imóveis, apenas as pernas a transportarem-na. O peso da máquina fotográfica fazia o corpo e os ombros penderem para a esquerda, a faixa preta reforçava no suéter preto os ossos da clavícula e os seios, o corpo esquelético de muito tempo; ela já não se importava. Sentou-se, as pálpebras se juntaram inconscientemente em algum instante oportuno, ela expirou todo o ar que parecia impregnado nos pulmões a muito tempo, incomodando-a, a respiração profunda a fez sentir a coluna e as costas doloridas de esforço físico algum. Os fones de ouvido propiciavam a melodia melancólica em sintonia com o momento, o pensamento mais uma vez a afastou do vazio de mais aquele domingo, e ela se deixou levar pelos devaneios, como há tempos não fazia. As lembranças mais doloridas vieram à tona, ela fingiu não se importar, quase lhes dava alguma atenção, quando a melodia da música nos ouvidos se intensificava, desconcentrando-a e fazendo esvair as memórias inoportunas. Quem ia saber, se viria mesmo algo para salvá-la de si...

Qual era a razão do vácuo de sua essência? Não era apenas uma razão, um motivo, um erro. Era a junção da personalidade, dos interesses, da indiferença, e de erros e ilusões sucessivos que fizeram-na desviar-se demais do rumo existencial aceitável para alguém, numa solidão contínua e de caráter duradouro. Ela abandonara toda a sua vida em prol de ter algo que, no futuro, também veio a perder. Trocar prioridades é um erro tolo que ela cometeu tantas vezes quando já não era jovem e supostamente inexperiente. Mas ela não podia mesmo saber que ser e agir desse modo lhe traria tantos incontáveis dias vazios assim. Todo aquele cotidiano nulo fazia esvaecer cada vez mais sua consciência, ela já não estava sã. Nunca chegou a entender o porquê de haver abandonado o que lhe acompanhara há tanto tempo daquela maneira, para ter algo que lhe surgira repentinamente, assim. Nem do seu amor ela já conseguia lembrar e entender ao certo. Agora, já recuperado o suposto pensamento racional, via de fora o que fizera no passado e se arrependia, sem se entender. O arrependimento e a incompreensão de si mesma a fez desistir pouco a pouco do viver, então, pois não lhe surgiu motivo para tentar recomeçar por outro caminho. Julgou-se indigna de querer essa tentativa, e as decepções acumuladas tiraram-lhe até a última gota de ânimo, e escureceram o coração que, não obstante, insistia em bater. Não se depreciou a ponto de querer impedir as batidas do coração, somente se fez indiferente a elas, já havia desistido de trazer um sorriso de verdade ao rosto pálido, que não fosse apenas um sorriso de agradecimento ao rapaz do caixa da padaria, ou um sorriso para evitar perguntas desagradáveis no jantar em família.

De repente a música nos seus ouvidos parou, mas ela não abriu os olhos, continuou estática. Veio repentinamente uma brisa atravessando-lhe o suéter; o corpo inteiro arrepiou, ela levantou-se num espasmo, sentiu um repentino e inexplicável feixe de esperança, as lembranças deixaram-na em paz, agora só indagava-se a razão da ventania súbita no seu corpo. Abriu os olhos, agora as luzes todas acesas, inclusive a que antes estava queimada, e o portão continuava fechado como deixara antes, o cadeado no carpete despenteado, a parede ainda com a pintura gasta, mas as luzes acesas sem porquê. Não havia mais ninguém dentro da sala, ela tinha certeza. De repente ouviu o barulho dos automóveis na avenida ao lado, o rebuliço das pessoas que tagarelavam na praça, os trovões da tempestade que ela nem vira começar. Sentiu o tremor do solo quando o metrô passou exatamente embaixo da cadeira que escolhera. Sentiu o mundo. Sentiu-o funcionando, e sentiu seu corpo estático em descompasso. A música nos ouvidos recomeçou, mas ela abaixou o volume para continuar ouvindo os ruídos externos. Caminhou até o portão novamente, e durante a caminhada esqueceu-se dos arrependimentos, das decepções, dos pactos que fizera consigo, e pressionou a maçaneta. A ventania e a chuva não tardaram a atingi-la, e ela de repente aliviou-se. As pálpebras agora abertas por completo, para enxergar as luzes difusas dos postes, dos carros que passavam na rua, por trás de tanta água que a separava de tudo. Enquanto isso, apareceu o vulto de alguém recolhendo o cadeado que estava pouco atrás de si, gritando-lhe algo com um tom de repreensão. Agarrou o seu braço fino quando ela fez menção de sair, mas mesmo sem dar muita atenção àquele semblante que ela mal vira, ela desvencilhou-se e correu para longe dali, sem lembrar-se da roupa que já começava a se encharcar; a tempestade parecia lavar-lhe o âmago, parecia tirar-lhe as incertezas e impulsioná-la a atirar-se no desconhecido, agora ela já parecia dona de uma disposição que tomara conta de si subitamente quando há alguns minutos uma brisa a atingira sem porquê e lhe dara alguma esperança que ela não se importava se seria vil ou não. Caminhou na avenida vazia, o dia escurecia por trás das nuvens cinzentas, todos abrigados em suas casas, o barulho sutil dos limpadores de pára-brisas era abafado pelos motores e pelo rebuliço de quem se protegia embaixo de qualquer marquise. Porteiros, comerciantes, empresários, donas de casa, todos entretidos em discussões sobre as mudanças de clima repentinas no país subtropical. O calor que era quase sempre ausente agora afastava a chuva de granizo e a neve da paisagem parecia derreter. Ela continuava andando rápido, alguns lhe ofereciam um espaço na portaria do prédio, ela agradecia com a mão e seguia.

Na ponte interditada, o cimento esvaia-se com a força da água que o arrastava e obrigaria o trabalho a ser refeito. De ônibus, a ponte não parecia tão extensa, bem como o rio. Com dois minutos ou três, ela ultrapassou o que todos os dias ela costumava atravessar em poucos segundos. Sentou-se no cimento molhado do porto e deitou suas costas no chão frio, as pernas ficaram livres alguns metros acima da água que se rebatia nas pedras do porto e quase a atingiam sem que ela sentisse. E passados alguns minutos, ela sentiu-se bem como nunca se sentira antes. Sabia que fizera o que poderia ter sido feito, e finalmente o peso da consciência parecia ter a deixado em paz. Não havia mais o que se fazer, falar, dizer. Não havia mais nada para caminhar, apenas o acaso lhe diria o que lhe serviria de energia para fazer novamente o motor roncar e disfarçar o limpador de pára-brisas cujo ranger lhe incomodava tanto. O metrô passou por trás de sua cabeça, ela sentiu apenas o chão tremendo de novo, sinalizando a hora de sua partida para uma vida sem melancolias sem razão, que ela poderia traçar sem haver a constante necessidade de um braço ao lado para levantá-la para recolocar o cimento que a tempestade levara embora.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Força a vista e vê.

Não há muito mais pra caminhar
Eu sei, juventude é ilusão.
É só o amanhã a se esconder de mim.
Dos sonhos de que eu me lembro agora,
São todos pra me atormentar depois.

Apontas pro nada e choras, que é?

Afasta-me de mim,
Que eu não quero me iludir de novo.
Mas ainda sou de insistir,
Levo a esperança até o fim,
Mas quando eu vou voltar,
Ela no ombro eu preciso arrastar,
E me faz desgastar tanto assim.

Apontas pro nada e choras, que é?

A luz da lâmpada
Ela é pouca, eu sei,
Mas o tempo é tanto
Que o pouco já faz me queimar.

Apontas pro nada e choras, que é?

De lugares desertos entendo eu,
Sou eu, ali.
De dias vazios entendo eu,
Sou eu, ali.

Apontas pro nada e choras, que é?
Ah, sou eu, ali.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A perna cambaleia.

Ele rebobinou a sétima fita cassete, desligou a televisão e recostou as pernas na estante empoeirada, o silêncio do pequeno apartamento contrastava com a ambulância que acabava de passar. O centro clínico ao lado do prédio não lhe convinha muitas vezes, mas de quando em quando o fazia lembrar que havia vida lá fora, onde talvez a monotonia da qual ele experimentava até mesmo fosse positiva ou melhor do que o sofrimento daqueles que ligeiros passavam dentro do veículo rumoroso. O estagnar de sua vida mergulhava sua alma num profundo desespero, que as olheiras, os dedos queimados de cigarro, a camisa mal abotoada e o olhar distante já não eram capaz de externar e representar com fidelidade. Olhando-o, ele se assemelhava com apenas mais um sonolento na fila do pão. O amanhecer só lhe trazia mais um dia, mais vinte quatro horas que se arrastariam quase sem fim. Depois do trabalho nada animador, a rotina era sempre a mesma. O humor de sábado já não se diferia muito do de segunda-feira, as noites já de nada serviam para orientá-lo no tempo, a vida toda parecia-lhe um dia só, e as insônias tão freqüentes acentuavam ainda mais essa impressão. Dias, semanas, meses, essas divisões todas não tinham significado para ele, o relógio indicava apenas a hora de sair, a hora de voltar, a hora que a locadora fecha. Os domingos, porém, já lhe foram mais aproveitáveis. A pesada câmera fotográfica servia para aliviá-lo dos pesares de todos os dias, mas depois de tantos anos, a rotina fez com que até mesmo suas paixões perdessem o efeito. Ele já não sabia se continuava consciente, se ainda sabia diferenciar o vermelho do verde, o laranja do azul. A luz fraca da lamparina de seu quarto já não parecia iluminar mais nada, pois seus olhos já não tinham porquê para se manterem abertos, portanto tanto fazia. Então, ele ouvia a sirene da ambulância que passava a dois metros dali, e se contentava. Levantava-se, então, apoiava-se na grade enferrujada e punha-se a observar quem passava na calçada. Do segundo andar era possível enxergar muitos detalhes de quem não fazia nem idéia de que um jovem observava seus passos rápidos, suas mãos movendo-se para frente e para trás, como uma máquina à manivela, seus pescoços que viravam para observar a obra daquele prédio que se arrastava por tanto tempo. Uma obra extensa, até demais. No meio de tanto cimento, de tanta argamassa perdida e desperdiçada no chão, às vezes ele não encontrava a escada para voltar ao minúsculo quarto. A poeira ardia-lhe nos olhos, talvez fosse mais fácil pegar de uma vez o elevador. E era o que sempre fazia. O joelho não doía, afinal. Mas vez ou outra, quando nos domingos não havia poeira alguma e ele descia para buscar o pão, ele resolvia subir pela escada, mas parava no meio, ofegante. Voltava os degraus rapidamente e deparava-se sem querer com a parede sólida e dura do pilotis. Quando ele mais ofegava era quando aparecia repentinamente alguém em meio à escada, ele não sabia se fingia não ouvir ninguém se aproximando, se olhava pro chão, pra frente, se abaixava pra desamarrar o cadarço e amarrar de novo, se fugia pra longe dali... O coração disparava, e todas as vezes que isso ocorreu, ele desceu novamente as escadas, para que não o vissem por ali, abria a porta da caixa postal e fingia procurar tranqüilamente por suas correspondências, sabendo de antemão que só encontraria contas de luz, água, gás. No quarto escuro, ele contava os problemas, pensava em quem ele encontrava na escada, de quem seriam os passos, pensava em tudo que tomava forma no seu dia-a-dia, pensava e adormecia ao pensar. Quando acordava, no dia seguinte – que para ele parecia o mesmo -, ele já havia se esquecido do que havia pensado, e no fim daquele dia ele tornava a pensar. Passava sua vida em meio a devaneios profundos, e neles perdia-se, entre as paredes do quarto do seu mundo. Em um feriado de fim de ano, ele decidiu tentar subir a escada, mesmo sabendo no início parar. Ofegou e confundiu-se ao subir os degraus, o barulho das sirenes da ambulância parecia ecoar nos seus ouvidos como nunca houvera antes, suou frio e o corpo caiu num desmaio instantâneo. Quando acordou, porém, sentiu a presença de alguém, ouviu passos na escada, um suspiro de surpresa, e seu coração não tardou a disparar. As luzes intensas do teto alto cegaram-no e deram-lhe uma dor não muito suave no centro da testa suada, e enquanto levantava as pálpebras, com o tempo focou sua visão em uma moça morena de dentes superiores afastados e sobrancelhas grossas, que usava um vestido vermelho que majorava as curvas do corpo bem feito, e que com suas mãos leves o levantava sem nada dizer. Calado, apoiou-se nos ombros dela, e todos os degraus da escada ele venceu; sabendo agora, mesmo ofegante, que não se perderia mais na escuridão do quarto, mas na escuridão daqueles olhos negros, que distraiam-no dos acidentes lá fora.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

SQS solidão.

De quantos passos vale o meu tropeço?
Meu joelho fraco não ultrapassa o meio fio,
Meu sorriso não convence,
Meu sorriso só mente a minha dor.
O timbre da minha voz é abafado de incerteza,
O nó na garganta prende em mim todo o temor.

Antes que eu desista,
Antes que o meu céu caia,
Antes que a lágrima evapore,
Antes que o coração endureça,
Onde é que foi parar a chave...
Me leva embora de mim.

Até quando inverno.

Acelera até o fim, que o meu pranto desaba.
A aflição é tanta que não ecoa mais.
Quem foi que disse, que um dia a dor acaba?
O tempo não cura,
Tantas vezes você disse que um dia iria passar.

O artista não parou de cantar,
O pão não parou de vender.
O despertador não vai me dizer
Qual a hora certa pra eu me render.

Eu me perco e não consigo me encontrar.
Quanto tempo falta pra solidão passar?
Quanto medo me dá, onde é que termina o meu fim...
Tanta maldade, eu não sei, será que sou eu?
Ninguém nunca me disse que era tão escuro assim.
Me leva pra fora, pra longe daqui.
Me leva embora contigo, me leva,

E me diz que estorvo eu não sou.

Quanto esforço pra tentar desvencilhar
De tanto medo que insiste em me perseguir
Quanta correria pra disfarçar a dor

Toda essa discrepância ecoa,
O preto e branco da alma distorce
O rebuliço alto da multidão que soa, soa,
E silencia quando me vê passar.
Até que vem o sorriso e distrai
A dissonância e o contraste de cor.
Me leva pra fora, pra longe daqui.
Me leva embora contigo, me leva,

E me diz que estorvo eu não sou.