sexta-feira, 28 de setembro de 2007

3x4 razoável.

O pranto contido
No último banco do ônibus se libertou.
Nenhum passageiro,
Nem o moço do lado notou.

O coração se parte,
O olho se fecha.
Mas o sono ainda demora a vir.
Até quando o tempo vai doer,
O silêncio é mesmo assim tanto tormento?

A cabeça pesou
E no papel nada ficou,
Sem dizer nada,
Tanto barulho pra quê
Se depois do desabafo, o que é que vem?
Se ainda vem algum dia pra me colocar de pé, será?
Sem saber se já desisti,
Afogar-me no cansaço,
Enquanto o mundo insiste em rodar;
Descompasso.

domingo, 23 de setembro de 2007

No idioma que ninguém nem lembra mais.

O ventilador que não lhe tira o calor,
A boca que de repente se cala,
A frase que lhe tira o ânimo,
O corpo que lhe tira a voz,
O grito que lhe sufoca.
O disparo passou assim ao lado
Custou-me um suspiro,
Tirou-me o ar.
E se hoje sei que só enfim terei paz
Quando no teu peito eu encontrar meu cais de porto,
Nessa espera o tempo corre,
Não dá trégua ao âmago
Corre lá e traz de volta
O que antes eu não tinha;
Que é pra ver se passa
Esse tempo que de minha posse já não é mais.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Lâmpadas, cones, birutas.



Ela deixou seu corpo ser levado pela escada rolante e pelo corrimão, apoiou a cabeça nos braços, fechou os olhos, apertou o botão central e aumentou o volume, ainda ouvindo as vozes dos passageiros que desembarcavam naquele destino comum. As luzes do balcão de sorvete se apagaram, já era tarde, não havia mais loja de conveniências e urgências alguma aberta. Andou sem rumo, o lado esquerdo do corpo arrastava-se ao longo da parede do terceiro pavimento, por inteiro vidrada, transparente para aqueles que quisessem assistir aos vôos e às chegadas do lado de fora. Eram poucos aqueles que se encontravam ali, passavam rápidos com os ternos voando, moldados pelo ar, seus olhares fixos nos painéis coloridos com os horários e atrasos. Desciam as escadas sem notar nos arredores, com a passagem bem guardada no bolso da frente - um pouco amassada, talvez. Parou, então, em algum ponto indefinido da parede de vidro, tendo tempo enfim para arrumar os cabelos que se emaranharam com o vento na saída da estação do metrô. Ela apoiou-se no corrimão branco, tocou o vidro com as pontas dos dedos e pôs-se a observar um pouco abaixo daquele pavimento, do lado de fora da construção, os aviões, máquinas, funcionários, e observou como os ônibus pareciam tão pequenos de longe com as aeronaves por perto. Imaginou-se dentro de um deles, e sentiu-se menor ainda do que já sentia antes. As pálpebras semiabertas por inconsciência, apertaram-se mais uma vez, nos ouvidos o som do violino acompanhou seu movimento, e a coincidência causou-lhe um arrepio inconsciente. Abaixou a cabeça, e viu o sapato sujo e o cadarço solto, os fios do fone de ouvido transparecendo por fora do bolso, e enfim, no reflexo do vidro que ela manchava com a ponta dos dedos, via os letreiros ao contrário e as luzes chamativas dos restaurantes da praça de alimentação, contrastando com a escuridão do lado de fora, do céu que abrigava os aviões que decolavam naquele instante, a intensidade da branquidão das lâmpadas do aeroporto disfarçava a escuridão do lado de fora, das ruas escuras iluminadas somente pelos postes de luz falha e amarelada. O ruído das conversas dos passageiros disfarçavam também o silêncio do pátio de vôo, o bater sensível dos vaga-lumes chocando-se com os holofotes e postes que de vez em quando era invadido pelo estrondoso rumor das turbinas dos aviões que decolariam nos próximos instantes.

Passou muito tempo a observar os aviões que sumiam da sua vista, seja pela distância excessiva que a visão não alcançava mais, ou pelos lados, quando a extensão do aeroporto a atrapalhava de continuar vendo a aeronave. Ela se perdeu, seguiu a rota de um avião que com o tempo foi se perdendo no ar, a luzes das asas foram se perdendo, diminuindo, ela comprimiu as pálpebras a fim de continuar a vê-lo, mas foi em vão, a luz esvaeceu no vazio do céu. Era assim também com quem desaparecia de sua vida pouco a pouco, ou por alguma razão que ocasionasse o fim. Eram poucas as ocasiões em que era ela mesma que virava as costas para quem ia embora. Podiam afastar-se lentamente, como os aviões que esvaiam-se no escuro do céu, quando a luz que antes era intensa, agora perdia-se em meio a escuridão.

Esporadicamente, enquanto observava sem atenção o movimento das luzes dos veículos a movimentarem-se, invadia-lhe a vontade de pegar aleatoriamente qualquer um daqueles aviões, e fugir da vida medíocre que se instalava, como que em uma impressão de que a cidade inteira já não lhe fosse suficiente, como se nenhum de todos aqueles habitantes pudesse salvá-la daquele seu caos particular; mas, no fundo, ela sabia que mesmo que mudasse o lugar, aquele seu vazio não desapareceria, o lugar mudaria, mas a sua essência continuaria ali, trancafiada em seu corpo pálido, juntamente com a impressão de que nascera mesmo para isolar-se, e não havia ninguém para acompanhá-la naquela morbidez. Alojava-se nela uma certa insolência, desesperança, sem um ombro ao lado para apoiar-se.

Perguntava a si se pegar o próximo vôo realmente mudaria ou valeria a pena correr o risco de abandonar o pouco que ela tinha ali, e sabia estar presa a uma pergunta sem resposta e a uma pergunta sem porquê. Ela olhou para o céu, para o nada, o clima seco não proporcionava nenhuma nuvem, o céu urbano com quase nenhuma estrela, a melancolia pesou-lhe no corpo. Era impossível que ela conseguisse disfarçar a sua desordem, sua falta de ânimo, sua expressão da face não enganava, o sorriso era pouco convincente. Os passageiros que passavam olhavam-na curiosos, porém sem gastar muito tempo dando atenção àquele fato, observavam seu pescoço a virar-se acompanhando a trajetória das luzes vermelhas do avião que partia, os olhos nele fixos, como se ela nunca houvesse visto um antes.

Com o olhar sem foco, procurava naquela imensidão negra e nas raras luzes vermelhas disformes a razão daquele autotormento, daquela dor que ela própria impunha a si, sem fim. Não foi somente o seu olhar que estava perdido, ela já havia perdido a noção do tempo, e a noção de si. Ela não sabia o que queria, mas ao menos sabia que não era aquilo, aquele viver a esgotava, mergulhava-a em lassidão, e nela acumulavam-se aqueles muitos sonhos já não tão juvenis. O cansaço concentrava-se naquela lágrima que em momento algum ela soltou, o excesso de euforia no passado e a experiência de uma felicidade de verdade a atordoavam agora que nada ela tinha, exceto a vontade de voltar atrás, e era só o medo que a fazia continuar, era só o medo...

O corpo se deixou cair no piso de granito, os olhares atentos pouco a pouco se concentraram e desviaram-se para o rebuliço próximo aos limites daquele pavimento, todos unidos viam uma única cena - o corpo no piso caído sem razão - mas uma única mente já não via cena alguma, um rosto pálido, com olheiras e pálpebras cerradas, mergulhava em um desmaio denso, em um momento de completa escuridão, como um céu urbano sem umidade ou tráfego aéreo, um período curto de paz, na incerteza de um retorno, uma mente que no fundo desejava apenas quietude e estabilidade, enquanto mais de cinqüenta passageiros gritavam por socorro, tampavam os olhos dos filhos e lastimavam ao presenciar um corpo que se rendia, entregava-se, sem saber se valeria à pena pegar o vôo de volta para o real. Do lado de dentro, ela via, e sabia, que aquela estrela no céu do núcleo urbano, que de pouco em pouco perdia o brilho, até dissipar-se na escuridão por completo, era a estrela dela.