sábado, 30 de junho de 2007
sexta-feira, 29 de junho de 2007
Deixe sua mensagem após o bipe.
Ele trancou o ateliê, e chutou com força uma rocha no caminho de terra. Lamentou-se da ineficiência daquele dia, atirou longe os pincéis, ajoelhou-se, deixou que o corpo caísse na velocidade que o vento deixasse, sentiu seus braços livres ao ar, as pernas chocando com o solo irregular, e chorou desesperado, emitindo sons, atraindo os transeuntes que o olhavam assustados, e que afastavam suas crianças da cena inusitada. A dor no dedão do pé não amenizava o coração que ardia, os olhos que lacrimejavam, a garganta engasgada de lágrimas, que quase berrava de angústia. Arrependia-se de não ter tomado atitudes, arrependia-se de ter se deixado levar por tanto tempo por algo que ele não sabia aonde iria chegar. O tempo se passou, mas por isso ele não se preocupava tanto. Agora, ele já estava preso como nunca estivera antes a alguém que não lhe dava tanta atenção como ele queria. Arrependeu-se pela fantasia, e chorou como nunca havia feito antes, e como doeu. Porém, não quis sair dali por muito tempo, deitou-se no chão sujo e frio, e por lá ficou a molhá-lo com suas lágrimas sinceras. Mal sabia o quanto sua camisa de botões estava sórdida, mas para ele não era de fato relevante. Ouviu o som abafado dos violinos distantes do rádio do ateliê que ele esquecera de desligar. Reabriu a porta, desligou o rádio, e levou-o consigo. Enxugou as lágrimas com a camisa, e andou cambaleando perdido de volta para casa. Ele mesmo não sabia descrever o quão abalado estava, e nem o porquê de tanto. Encontrava-se tão bem, quando alguns minutos mudaram bruscamente seu humor, e agora seu pranto refletia uma falácia por tanto tempo alimentada. Era mais fácil que ele chorasse, do que se tomasse alguma atitude, ele era incapaz naquele momento. E nada traria seu sorriso de volta, senão exatamente aquilo que trouxera sua expressão tão melancólica. Ele abriu a porta de casa, subiu as escadas agitado, e não suportou até discar em segundos os oito bipes que ele precisava para acabar com sua incerteza; trazer um sorriso, ou trazer um pranto ainda pior, que ele não fazia idéia de como poderia soar, e talvez a tela branca que ele deixara intacta no ateliê fosse a reflexão mais honesta de como ele se sentia naquele instante, e ele esperou por uma resposta no telefone que ele segurava com suas mãos que tremiam de ansiedade, por uma resposta que colorisse ou sua tela; ou que escurecesse-a com a tinta preta, apenas.
quinta-feira, 28 de junho de 2007
Liberdade tempestuosa.
ela poça sem encharcar os sapatos e molhar de leve as meias furadas no calcanhar. Ele contraíra uma velha mania de acreditar que há uma nova moderna de se deixar levar pelo tempo sem que nenhuma lágrima prisioneira precise soltar-se, viver sem precisar sofrer e liberar o pranto, mas mesmo naqueles tempos medernos não havia lavanderias que secassem num único instante as suas lágrimas, pois era necessário que ele se deixasse levar verdadeiramente, as lágrimas um dia deveriam cair, o vento na face a espalhá-las pelo corpo todo, a invadir as orelhas, a molhar as raízes dos cabelos, a sentir um ardor impiedoso nos olhos, e um olhar distante sincero a contemplar a liberdade de seu sofrer.quarta-feira, 27 de junho de 2007
Quatre murs pour la salle de torture.
segunda-feira, 25 de junho de 2007
I don't need any fucking drama.
Telling me that things will be better tomorrow.
I really hope I'd feel happy someday
If I just didn't know who I am.
I'm giving up from myself sooner than I thought.
But today
I’m crying me out
And desesperatly stupid enough
To say something about these tears.
I'm giving up from myself sooner than I thought.
Olho escarlate.
Em um dia saturado em preto e branco
Uma alma morna
Presa a uma nostalgia que contrasta com o momento
E um coração ardente
Que há tempos já não sabe acelerar novamente o seu bater
Como quando ouvia o seu nome,
Como quando ouvia os seus passos,
Hoje a freqüência é baixa
Não acompanha os bits
Das potências de dois
Das canções melancólicas grudadas aos ouvidos,
Que já se desacostumaram a relembrar noite e dia a sua voz.
O silêncio é a sua ausência
Que se esmorece com o tempo
E que desaba em mim com espasmos temporários
De alegria, de lembrança e de tormento.
sábado, 23 de junho de 2007
Mais sentimental que eu.
terça-feira, 19 de junho de 2007
Macroscópico.
Nada desapareceu.
Nada foi embora.
Os hits dos anos 80 ainda tocam numa freqüência de rádio.
Os jovens ainda dançam.
Os velhos ainda sofrem para atravessar ruas.
Os mendigos ainda não aparam as barbas.
Os muçulmanos ainda usam véu.
O aborto não legalizou.
É, nada mudou.
Quando você foi embora, só o meu mundo acabou.
Na estação.
- Sempre rir assim?
- É. Eu te vi lá dentro, falando e argumentando. Sabe das coisas, é inteligente, e ri de tudo como se fosse qualquer outro estúpido. Isso eu não consigo, prefiro abster-me.
- Ah, então você imagina que eu seja inteligente, e faça-me de estúpido para me acharem estúpido, quando na verdade eu tenho um intelecto invejável e faço idiotices só para me mascarar, mas no fundo continuo achando estúpidos todos aqueles que riem junto comigo?
- Isso, basicamente isso.
- Não, não é isso; sou de fato estúpido mesmo.
- Ahn...
- É. Sou idiota assim como aparento ser. E não tente buscar ídolos. Opa, esse é o meu. Bom dia pra você, aliás, boa tarde, já são três.
sábado, 16 de junho de 2007
domingo, 10 de junho de 2007
Não chute o cone.
Algumas linhas de desabafo, algumas outras de pura ficção forçada...
-
Era o mais simpático que eu já havia conhecido. O que de fato para ele não era um tão grande feito, pois em toda vida eu não havia conhecido muita gente. Muita gente talvez me conhecesse e cumprimentasse-me na fila do pão. Ou melhor, talvez muita gente conhecesse a filha única de meu pai, e cumprimentasse a calada filha única de meu pai, cujo corpo coincidia com o meu. Mas eu quase não reconhecia toda essa gente, defeito de memória, descaso, indiferença, não sei. O fato era que mais simpático do que aquele rapaz eu nunca havia visto, e era para mim uma surpresa ver alguém responder a um atendente confuso de maneira tão sutil. Talvez se eu conhecesse mais gente, não daria tanta atenção à resposta do rapaz já antes conhecido, não sentiria tanta surpresa, pois não devia ser tão raro assim toda aquela simpatia. Tomei cuidado para não sentir afeto nenhum pelo rapaz, e retirei-me logo da padaria, para que ele nem mesmo reconhecesse-me, e nem eu tentasse criar algum vínculo. Eu não sabia reagir, comunicar-me ou expressar-me, então fugi logo da padaria talvez para continuar fantasiando-me. Trinta e seis anos de solidão e fadiga sem razão. Trinta e seis anos de vida... não. Trinta e seis anos de sossego e agonia, apenas. Desde criança disseram-me que era importante que eu vivesse intensamente, desde criança mostraram-me que preciso era ser responsável pelo próprio nariz e traçar o próprio caminho, e consciente disso eu sempre fui. Eis o que eu era, consciente, apenas. Ensinaram-me, e eu, porém, fui incapaz. Tolice, não... Apenas incapaz. Foi submerso em aflição que eu vivi, e foi com aflição que fugia daquele rapaz que me encantou. Foram trinta e seis anos pacatos, foram trinta e seis anos de imprevisão, dessas coisas que o destino nunca prevê, e em destino eu nunca acreditei mesmo. A alegria de um sorriso sincero eu nunca senti, por não saber o que isto era. O dicionário não me dava a definição exata de felicidade, assim como quando criança nem meus pais me deram a definição exata de aproveitar a vida, tantas palavras sussurradas ao pé do ouvido, tantos conselhos trouxeram-me apenas tortura pessoal. A cada ano singular que se passava, maior era o tormento de nunca ter aproveitado o que já se passou, com o tempo eu já esquecia-me das palavras de meu pai, meu inconsciente já desistia, eu já me conformava com a minha vida pacata, pois não sabia que era possível viver mais do que aquilo. Fugi com aflição, os passos largos e ligeiros a dirigirem-me à saída, as mãos trêmulas a empurrarem a porta, um caminhão a notar-me, um berro distante, e uma certeza: naquele momento foi da vida que eu fugi, e eu só o percebi quando a menos de dois segundos do fim, abri os olhos pesados e senti o coração a acelerar, lá estava o rapaz simpático desesperado a procurar nas artérias algum sinal de meu pulso. Por um instante ele o sentiu, mas foi o último pulso, o mais acelerado e o mais intenso, e todos os outros pulsos subseqüentes àquele pulso derradeiro foram em vão. Como eu poderia não sabê-lo antes? Desta vez a agonia que me possuiu não foi mansa como todas as outras, mas carregada pela primeira e última paixão atrasada. As pálpebras caíram sem forças lentamente, e aquele último pulso fora o pulso necessário para que eu soubesse, apenas nos dois últimos segundos, ao encontrar a morte precoce... meu epitáfio melancólico: morrer sem nunca ter vivido.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
sexta-feira, 1 de junho de 2007
O mundo é abstruso para quem?
Talvez para a humanidade não tenha sido indispensável envelhecer para tornar-se inválida. Pouco a pouco, anulando-se, numa progressão lenta rumo à autodestruição. Não foi necessária uma explosão atômica ou uma arma bacteriológica para destruir a civilização. Talvez não seja sensato dependurar os pés ao sofá enquanto se admira o caos, ou na maioria das vezes; dependurar os pés ao sofá sem ao menos notar o caos que segue, em um sono profundo. A destruição lenta é imperceptível para quem cochila tranqüilamente no sofá, para quem fechou os olhos e caiu no sono sem saber. Ninguém instruiu os pequenos indivíduos acerca do que fazer com a vida que lhes foi dada, e quando a vida - sem sentido - torna-se monótona, adormecem inconscientemente no sofá, felizardos mergulhando na ilusão. Talvez algum banho de água fria os ajude a acordar, mas apenas os ajude. Para aqueles que dormem, o apito do despertador deve soar proveniente de suas próprias cabeças que um dia adormeceram sem saber, o apito é, na maioria das vezes, o ápice da fantasia. Talvez o apito seja uma queda brusca naquele sonho que começa tão sutil. Talvez um enorme inseto a rastejar pelas costas. Talvez uma prisão em um quarto escuro. O apito é uma decepção, uma agonia, um medo, um desespero. Acordar nunca foi tão subjetivo assim. Acordavam atordoados, tontos, zonzos, mas com o tempo aprendiam, pela primeira vez, a maneira de viver acordado e atento – sem mais adormecer; mas eram poucos os que acordavam, pois era tão bom mergulhar profundamente naquela fantasia para nunca mais acordar! E sutilmente, a custo do tempo, houve acordados que se aproveitaram de quem dormia no sofá, e atentos e espertos, criaram afinidade com o silêncio, e aos que dormiam não acordavam enquanto construíam um planeta todo para si. Alguns dos que dormiam ouviam talvez parte do rebuliço da construção, moviam-se incomodados de um lado para outro no sofá, soltavam algum grunhido sonoro queixando-se do barulho, do sol que agora parecia queimar-lhe a pele, mas não acordavam, não se davam conta das circunstâncias que se passam justo ali em frente, não levantavam do sofá; seus olhos continuavam cerrados. A custo do tempo, o ego de alguns acordados prevaleceu. Orgulhavam-se de permanecerem acordados, uniam-se em pequenos grupos, e sem medir conseqüências, construíram um mundo só para si, que só parecia lindo para si. Enxergavam apenas a beleza do mundo, olhavam de relance as desgraças, e mal sabiam que eram tantas. Quem desistia de tentar enxergar um mundo belo, adormecia. E havia quem não enxergasse a beleza do mundo, mas acreditasse por bobeira que enxergasse, e isso já era sonho, mal sabiam que já há tempos haviam adormecido. Havia quem enxergasse a beleza e a desgraça, mas esses eram escassos, e justamente por serem escassos não possuíam força suficiente para superar o ego de quem tinha poder. Passou-se muito tempo, e pouco a pouco todos adormeceram, agora o mundo cochila, num pesadelo nivelado, hostil. Cabe apenas a quem permaneceu acordado julgar se o mundo já se destruiu, ou se apenas se anulou, num sonho profundo sem final feliz.
Quanto a mim? Pois bem. Eu já não sei se isso é destruição ou se não passa de mero pesadelo da minha mente... Tanta gente ali do lado rindo.

