Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Mudança.

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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Foi quando quis compor o silêncio.

No estacionamento a noite era tão limpa e tão silenciosa que me poderia causar medo, mas fez o contrário, tendo me acalmado de tal maneira que quase me esqueci de todos meus infortúnios e fardos enquanto me afastava da bicicleta. amarrada ao poste. Logo que passei da porta senti o vai-e-vém dos garçons aflitos, passei umas tantas mesas e deixei a mochila atrás dos amplificadores, como de praxe. O meu banco estava empoeirado, virado de cabeça para baixo em cima da caixa de som, deixei o violão no apoio e fui procurar o gerente, que ainda não me havia visto. Encontrei um cupom fiscal jogado no balcão e, enquanto esperava, nele anotei as músicas usuais, enfiando em meio ao repertório de sempre umas três ou quatro músicas do meu gosto. Mas o meu procurado não tardou a chegar, engravatado e apressado. Pegou-me a mão e me disse querer o de sempre. Mal terminou de dizê-lo, já saía a gritar um garçom magrelo que equilibrava pratos desorganizados em cima da bandeja. Senti naquela indiferença um respingo de confiança e digiri-me ao banquinho.

Ruído. As vozes todas, tão enfáticas em sua singularidade, a mim não passam de ruído. Um murmurinho irregular, que me exponenciava a irritação inconscientemente e que me abafava a voz, mesmo que potencializada pelos alto-falantes. As mesas estão todas ocupadas, o local em si absolutamente abarrotado. Uma família de sete ou oito pessoas se amontoou ao redor de uma mesa para dois, um garçom alto e parrudo conduzia um pequenino pedinte invasor à porta do estabelecimento quase o arrastando pela mão, o cheiro dos pratos recentemente feitos subia ainda quente. Não conseguia distinguir uma palavra sequer do que a multidão proferia, apenas se estilhaçavam no meu tímpano resquícios pontiagudos de uns gritos exaltados.

Não como há muitos anos, as estrelas já não queimavam acima do horizonte, não havia motivo para que se fixasse o meu olhar tão distante, mas foi assim que o mantive quase o tempo inteiro. Prostrei-me embaixo do feixe de luz e pus-me a dedilhar o violão, sentindo que as costas enviesadas e curvadas e a voz já atrasada transpareciam mesmo de início a minha má vontade. Enfim entoei os dois primeiros versos, rouco e acanhado, e não pude deixar de fazer notar a timidez em cada uma das trinta e sete canções que eu mesmo me destinei a apresentar. Vez ou outra flagrava umas mulheres caladas movendo os lábios a acompanhar as palavras dos versos conhecidos, ou ainda um ou outro que virava o rosto para enxergar a face pálida do pouco notável cantor.

A música que cantava não me atingia, sem demora embriaguei-me de uma solidão ébria, tropecei as unhas nas cordas e a língua nas elisões, aliterações. Às vezes quase me esquecia do que estava a cantar, muito embora os versos seguintes pulsassem em mim não sei vindos de onde e continuassem a ser movidos pela minha voz quase que automaticamente, disfarçando os erros dos ouvintes a mim desatentos, absortos que estavam em suas conversações.

Era demasiada a alegria que as gargalhadas disparavam ao ar agitado, flutuava ela por aquela áurea repleta de um aroma de mostarda e vinha me arrebatar, tirar-me de mim, derrubar-me e comprimir-me em uma insignificância silenciosa, deslocado que estava ali. Mas logo flutuei eu também, etéreo e estouvado, sem destino a pairar pelos sorrisos de uns rostos e pela apreensão de outros, mas foi no teu que parei, distante e invisível que estava, escondido por trás das palavras graves que de repente proferi lineares e fora de compasso, em meio ao meu estribilho desconhecido e ao estrídulo dos garfos nos pratos.

Já não me lembro se no mesmo momento me calei, nem se me estranharam, ou sequer se me vaiaram. Passo vagarosamente pela beira da pista e os automóveis me ultrapassam velozes, trazem e levam num segundo as apreensões e as expectativas de quem volta ou sai de casa. E eu já não sei se agora estou a sair ou a entrar, ou se ainda permaneço tão deslocado na solidão quanto naquele aglomerado. Toquei a campainha diversas vezes, incansável, e só depois de muito tempo recordei que a chave era única, só minha, apanhei-a instintivamente no bolso direito da camisa. O silêncio de fora me envolveu sem cumprimentos demasiados, mas senti de imediato que no apartamento vazio não havia espaço para mim. Não soube passar da porta, nem voltar ao ar. Quis gritar o silêncio e derramar num pranto silencioso o grito. Os versos que compus há muito tempo ainda em mim ecoam, e são a mim todos alheios, são no meu peito a composição de outrem gravada por cima de tudo que sou e que sei. Descobri num espasmo que ainda desconheço o silêncio absoluto, bloqueado que ele é pelos meus pensamentos e versos, constantemente deturpados pela conseqüência da incompletude de um existir sozinho. Decidi abdicar do impossível, voltei ao violão, pedi perdão ao gerente. Sentei-me e me pus a procurar um olhar igualmente perdido.

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Evapora.

A chuva veio tão rápido que estranhei, corri às janelas e fechei-as sem conseguir evitar ser um pouco molhada, enquanto o telefone num repente começava a soar periodicamente. A tempestade veio assim intensa a abafar o som da música que me entretia, ainda assim abaixei o volume, enfiei-me no suéter e me apressei em apanhar o telefone. Precisei fazer crescer a voz para me fazer perceptível a essa chamada que por sorte consegui ouvir. Escutei ao ouvido uma voz áspera e distante que pigarreava e vacilava em pequenas pausas a cada repetição que eu solicitava. Não tive outra opção senão fechar os olhos e me concentrar para lhe responder, mesmo ainga ignorando a sua identidade. Antes, em meio ao ruído da chuva, confundia-me e não sabia se escutava mesmo a música ou se só a imaginava na minha cabeça acreditando ouvi-la de fato, mas agora as minhas dúvidas concentram-se no fato de ter sido o seu nome o proferido pela voz áspera que não identifiquei mesmo com muito esforço. Desliguei e não pude evitar esboçar um riso em silêncio. Decerto em algum momento processou-se o esquecimento, como pude eu não reconhecer uma voz que outrora eu tanto evitava e abominava por me esmorecer à simples recordação em pensamento. Senti-me suando dentro do suéter. Foi quando me dei a perceber, o céu já se havia clareado outra vez. Estranhei.

X/1/Y.

A sirene que me atordoa se perde, por mim conscientemente despercebida, e isso que é um aviso eu penso ser apenas efeito da tontura sobre os ruídos cotidianos que me cercam. O trânsito simplesmente me carrega e sigo o fluxo quase imóvel. Sou levada pela avenida sem intervenções diretas e essa indiferença de tudo o que me rodeia parece-me agradar por um instante, até que esta áurea desconhecida me envolve e se converte num sentimento inóspito de solidão.

Em agonia, troco a marcha incessante e repetidamente, mas há algo que me pára, não sei se é culpa da inércia ou se é culpa da ventania que me bate de frente eu ainda permanecer no repouso com o acelerador há tanto pressionado. Já não sei o que me prende, as palavras que ecoam em mim são confusas, e também quero atribuir a culpa disso ao som das buzinas que me dilacera.

Não vejo o semáforo à minha frente, vejo por trás dos prédios e entre as nuvens umas imagens fluidas e espaçadas das revistas vazias do consultório, das pinturas abstratas tortas na parede branca, dos contratos e cheques repletos de caracteres desconhecidos, dos ecos de vozes que já não reconheço, da pilha de envelopes que mencionam um nome a mim estranho e que joguei no banco do passageiro, ausente.

E se você ainda há de me encontrar, será nesse atraso inesperado, talvez esteja eu ainda distante, assim fora de rota, fora de sinal. O desespero ainda não me atinge por defesa da inconsciência, que não obstante não detém essa angústia calada, que me indica que algo está por mim esquecido, algo que não sei sequer reconhecer.

Há uns quantos receios que me preenchem, o eco das minhas palavras frias se confunde com o vento que invade o automóvel pela fresta da janela. O céu nublado propunha poesias, escrevi na mão uma frase que mais tarde poder-me-ia inspirar. Sem rasuras, ela veio, coerente. A silhueta que me define contorna o vazio, e quase se vêem no tórax as pilhas que me esqueci de lhe pedir para recarregar.

Tão logo pus esse ponto final, ouvi o vidro se estraçalhar, a porta se abrir bruscamente e umas quantas vozes grossas de distintivo a perguntar umas às outras por que um automóvel vazio estava a interromper o trânsito. Larguei o volante num espasmo, aleguei que não sabia por que motivo não me movia, provavelmente problema elétrico, mecânico, não sei. Pensei que fossem me acolher, examinar o veículo, mas somente apanharam as cartas do banco ao lado, saíram com elas e leram em voz alta um nome qualquer. Por um instante, pensei ter sido o meu, mas foi só desvario instantâneo, logo um desespero familiar me deteve calado e interte outra vez. Deixe a porta aberta, vou a pé, chego já.

Os seus atrasos, que me atingem pontuais.

Já são tantos os pergaminhos que acumulo com os mesmos lamentos que me é inútil utilizar eus-líricos masculinos para disfarçar-me nas frases que intrinsecamente só a mim contêm. Hoje, decidi dormir mais cedo. Se me deixo ficar e me detenho próxima, é só por descuido, por desleixo leviano a que me induz um desvario tolo, quase tão tolo quanto eu. Ponho a tocar umas quantas músicas que há anos me encharcavam o rosto, e agora as sinto ralas, ocas, pueris. Se não são de estúdio, atenho-me ao fato de que se atrasam deveras as plausas de entusiasmo do público ao início. Se de estúdio, já vejo alguma parte de mim a se perguntar qual é aquele compasso. Mas então ponho as músicas que ouço corriqueiramente há dias e dias a fio e agora os olhos me ardem a ponto de me fazer esquecer o ferimento na clavícula que antes me roubava o ânimo e a consciência.

No derradeiro silêncio já não ouço zumbidos, já não há um último estribilho ecoando no crânio. Há só um ruído distraído dos raros automóveis que circulam pela ruela ao lado, das folhas que roçam umas nas outras com o vento, da chuva que se estilhaça no vidro embaçado. Esqueci de fechar a cortina, há algo em mim que me pesa mais que a agonia, que o medo, que a apreensão. Já bem sei que não há transeuntes. Deitei-me no colchão duro, que nunca tinha sentido duro, não precisei dos cobertores, não senti a calça jeans me sufocando, o cabelo embaraçando, o travesseiro caído ao lado. Já não sei se há sonho no fim do precipício em que há muito me joguei, só sei que não o esperava tão sólido quanto o que apoia agora este sono.

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

A sede que não podes sentir.

As árvores que nos sombreiam o caminho usual já estão cansadas das trivialidades que trocamos entre uns quantos silêncios pesados que carregam a minha culpa e o teu medo, e que teimamos em disfarçar a todo custo. Os anseios que pensas omitir eu sinto intensos na tua despedida. No beijo ligeiro e no boa-noite singelo que proferes com uma voz cálida e baixa, ansiosa por ser abafada pela minha. Mas eu quase nada digo, só profiro um adeus frio que espero não corresponder às tuas expectativas, pois creio ser isso o mais sensato da minha parte e o menos doloroso a ti, mesmo que não no momento. No derradeiro abraço que me deixas sinto largares em mim uma parte da tua apreensão, enquanto estes teus braços que justamente agora me envolvem transpiram o teu afeto já amargo. Sinto-me neles imensamente culpada por desejar tanto outros, que a mim aspiram, mas apenas me tocam, nada transpiram.

Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

A sede que não posso sentir.

Acorro ao violão não somente para romper com este silêncio que me devora, a clamar gentilmente a lágrima, mas também para ver se disfarço a tua ausência, para ver se alivio estas mãos frias que não se contentam em nada envolver, mal acostumadas que estiveram a guiar os teus pulsos.
Contudo, estão não só os braços, as mãos e os dedos sem forças, como também meu corpo inteiro, que pende e se joga às paredes indiferentes que me abrigam. Tudo se apresenta como um corpo estranho a mim e largo também o instrumento, agora que as notas se recusam a interpolar-se umas nas outras e apenas gritam num compasso incerto agressões às antecedentes, postas todas pelo meu desleixo sem talento.
Sem escolha, desvio-me da existência, destes dias nublados que se sobrepõem e acumulam a invencibilidade da tua ausência sobre a minha fraqueza, destes dias que amanhecem silenciosos e permanecer alheios ao timbre da minha voz, trancafiada a deteriorar-se juntamente ao que resta de mim.
Desvio-me das novidades, dos dias que passam do lado de fora do quarto, das noites que se marcam coloridas no teu calendário, das cartas que prevejo receberes. Desvio-me de tudo quanto me dê informações, fecho os olhos a tudo, a tudo, que sempre há de te rememorar. Desvio-me, encolho-me, calo-me, e ainda assim as memórias que guardei são bastantes, suficientes para abater-me por completo com tais recordações que teimam em preencher os cantos vazios ainda não doloridos.

Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Quanto àquilo.

Tive o sonho, mas de qualquer forma já não o tenho mais comigo. Tenho agora a idéia de que fugir do coma deve mesmo doer, ainda mais se for de fato possível escutar, delineados por vozes conhecidas, os depoimentos, agradecimentos, lágrimas e perdões daqueles que se desesperam à beira da maca. Ter de agüentar escutá-los trancafiado no corpo que já não é seu, para depois eventualmente acordar após muito tempo, já absolutamente esquecido no quarto silencioso do hospital.

Estive a dormir mal por noites seguidas que sequer foram enumeradas ou analisadas pela minha mente sistemática. Perderam-se elas todas no branco silêncio que as une e apagaram-se as particularidades de cada uma até que sobre apenas a vaga sensação que largam às minhas costas a insônia e o cansaço.

Esforcei-me durante esse tempo por manter-me lúcida e presente no real, ainda que não haja muito o que me prenda ao mundo. Fracassei, porquanto hoje o que mais me marca são os meus desejos e o meu incerto sono derradeiro. Quanto ao sono que ele levou consigo ao despertar, dele não tenho mais que imagens espaçadas e desconexas que tentei unir e encaixar sem muita convicção do que fazia, apenas por imposição do pensamento racional.

Vinha você às pressas despertar-me ao meio-dia, decerto para anunciar o almoço com o costumeiro mau-humor e a lassidão que nos devorava a cada amanhecer, e encontrava-me então torta no sofá com os lábios espantosamente escancarados a sugar e expelir o ar, numa expressão tal que quase implorava que me concedesse, por favor, aquele raro momento de paz. Contudo, logo eu acordava-me por mim mesma e proferia quaisquer grunhidos que lhe incomodavam. Não tardava você em correr ao quarto, buscava a gaita empoeirada e metia-ma à boca quase a me sufocar, declarando simultaneamente umas quantas ameaças que exigiam de imediato o meu silêncio. Houve; contudo, em mim, algo que me impediu de calar-me embora eu não tivesse forças para sustentar qualquer conflito. Num arcorreflexo destinado não sei aonde, tomei-lhe a gaita e atirei-a sem rumo, indo ela estraçalhar as prateleiras de vidro da estante, que caíram uma a uma sobre as mais inferiores em tilintares agudos e sem sincronia. Sobrou ao fim apenas a prateleira mais superior, que apoiava intacta as fotografias envolvidas pelos porta-retratos gris. Após tais atitudes rompantes, abarcaram-me o desespero, a cólera, a fúria e uma torrente de lágrimas azedas.

Antes do sonho terminar, soube que o sonho era só sonho, sabe-se lá por intervenção de quê. Só sei que soube e tive vontade de trancar-me por lá, mas uma parte de mim apressou-se em ir pedindo perdão e me impulsionou inteira a abrir os olhos e despertar. Nunca senti o corpo nem as pálpebras mais pesadas. Tive medo de que você me atacasse por tal estrago e pedisse por silêncio em um grito de fúria, em um estampido final, mas você não veio, a imagem que se configurou à minha frente gritou, de fato, mas gritou o silêncio típico dos apartamentos vazios e os meus olhos secos arderam mesmo sem liberar a lágrima, e viram a estante intacta e ausentes os porta-retratos que jamais ali estiveram.

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Quanto a isto.

O apartamento está novamente vazio, mas isso já há tanto tempo. Fica calado à espera do proprietário que insiste em não o ocupar. Não negocia com quaisquer outros a sua posse, mantém a sua ausência desde sempre constante e permanente e, ainda assim, não se encoraja de maneira alguma a disponibilizá-lo aos aluguéis. Assim estão todos os vizinhos deveras intrigados, porquanto não conhecem nem de vista tal dono e não reconhecem no bom-senso motivos quaisquer que justifiquem a sua conduta.
Os documentos de posse permaneceram todos na terceira gaveta da cozinha que hoje tem a pia seca, vazia das ruínas da fome e uma janela que guarda o reflexo de ninguém. Foram deixados ali não por desleixo, mas por cálculo; porquanto, na única visita que fez ao abrigo, o dono não estava de posse de seu automóvel e a tempestade que o acompanhava ameaçava e avisava em trovões e relâmpagos que frágeis papéis não sobreviveriam ao fenômeno torrencial. Quanto à chave, guarda-a ainda agora na jaqueta cinza que utilizara, que viera encharcada e que agora descansa empoeirada, escondida no último cabide, no canto do armário, sendo notável às paredes do cômodo e do armário que ele evita até mesmo olhá-la, temendo que mesmo num relance desleixado, deixe sua consciência vulnerável render-se a preocupações e recordações de outrora.
Calado, calado. As portas quando forem abertas vão rugir, as janelas provavelmente há muito estão emperradas teimarão em permanecer fechadas, o ar por ali há muito não circula e ecoam pelos cômodos os vestígios dos ruídos que produzem os apartamentos vizinhos. Há ali uma áurea de silêncio, de abandono, que inspira cautela e sutileza nos passos de quem o adentrar. As paredes mal pintadas denunciam o cimento, os tijolos, as infiltrações. E permanece ali, na terceira gaveta da cozinha, o teu nome gravado, assinado, circulado, que em certas noites de silêncio se duplica nas tuas memórias, gritando a existência desse abrigo que tanto implora por ser habitado ou repassado a quem o queira habitar. 
Que maneira insensível de representar um coração tão mal fadado. 

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Bons-dias.

Voltei, portanto. O planeta percorreu a sua elipse sem mais impedimentos e jaz novamente no mesmo local que há trezentos e sessenta e seis dias. Ainda há pouco, peguei o avião e agora estou certamente também próxima do local que eu ocupava há esse tempo. Mas é certo que, como o vento, as garoas, as tempestades e os transeuntes fazem mover a areia, já não sou capaz de identificar nesta os rastros exatos que deixaram os meus pés e contento-me em prostrar-me em algum lugar próximo do que julgo ter estado exatamente. Vêm-me depressa umas quantas recordações que me preenchem sem tirar de mim a calma.
Há tanto, fincaram-se os pés por muito tempo na areia cálida enquanto a luz solar fazia acelerar nas minhas costas descobertas o ciclo de troca da epiderme, que se esparramava e e escorria de mim juntamente aos pensamentos e memórias vis que eu pensava a maré poder levar ali e àquela hora já em definitivo, enquanto ia e vinha a aliviar o calor dos meus pés. Contudo, mesmo passando tanto tempo a maré a delvolver-mos, os pensamentos e memórias a mim, logo depois de levá-los, tudo o que ela tardou não importou, se eles porventura acabaram por se perderem em qualquer corrente frígida e se desviaram do meu trajeto. Permaneço de pé, as calças já muito pouco molhadas, sinto vir um calor que evapora a água, e com ela a áurea de arrependimento, de marasmo, lassidão.
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Deslisa pela janela uma brisa que me arde,
Vem no silêncio soprar a minha ferida, a minha lástima.
E volta a te atormentar os veraneios, em devaneios,
Como uma frígida bruma carregada da minha lágrima.